SOBRE A ARTE DE ATRAVESSAR PAREDES

Solo-performance no CEP 20.000, no Espaço Cultural Sérgio Porto, Rio de janeiro. Encarando os eventos como paredes, o ator começa a cena se desviando de projéteis. E simula uma luta de boxe consigo mesmo. E, com microfone sem fio e música especialmente composta para a performance, diz : "A verdade é que os eventos me atravessam. São paredes colocadas no meu caminho. Nunca saberei se de propósito, se ao acaso... Ou eu as atravesso ou elas me atravessam. Como sou fantasma em potencial, pois já sei que, quando atravessar o véu, não saberei se continuo vivo ou morto, desperto ou em sonho, alma ou corpo, continuo na estrada. Tento elaborar cada vez mais esta arte de atravessar paredes, sejam elas reais ou não, apesar de esborrachar a cara de vez em quando, apesar de nunca entregar os pontos . Fico aqui em cena, como um palhaço com a torta na cara quando esquece o texto decorado.

Faço o meu caminho, não há outro lugar aonde ir, meu tempo se desenha na horizontal... Sou um homem de dimensões: Alma, corpo e pensamento. Tempo e espaço. Nada além. E, embora isso não facilite em nada os meus contornos, sou exatamente isso.

Tento me delinear, desenhar uma sombra, um formato ao menos, mas é como ao catar conchas... As ondas apagam as pegadas na areia. O tempo todo, tudo muda. Não há parede intransponível. São escolhas e acasos o tempo todo. Tenho na minha frente a parede ou o espaço livre. E não me parece estar em mim o desvio dos cursos. A vida me coloca na nervura exposta. Não sei qual lâmina exatamente me fatia. E nessa insistência em deixar a história me alcançar é que posso enxergar o que de fato me constitui. Desses hiatos, desses intervalos de encadeamento de fluxos inseridos no contexto que me fazem ser o que, enfim, virei. O que virei é exato. Do tamanho exato do que pude ser. Nada além. São escolhas e acasos o tempo todo. E sou eu quem está na pista. De pouso ou decolagem. O tempo todo em trânsito, habitando o espaço aéreo. O tempo todo o meu em mim comigo então define a direção. Ou não. Nem sempre em mim a escolha. Nem sempre em mim o leme, a definição do caminho que tenho a seguir. O tempo todo o meu eu em mim mesmo. Seja cabeça ou coração. São escolhas e acasos o tempo todo. E sou eu quem está na pista. De pouso ou decolagem. O tempo todo em trânsito, ocupando o espaço aéreo. É assim e será. Mas nas minhas pequenas obsessões insisto em deixar rastros. Qual fio me lâmina. Que meios, não sei ao certo. Ao certo de nada sei. É a montanha-russa que me quantimeia, me liquefaz. Nada sei da vida, da morte, da escolha ou sorte. Subo e desço na corcova da vida. Vislumbro savanas, oásis, desertos das mortes, berço de vidas. Escuros sombrios. Claridades instantâneas. Vou da vida colorida à morte azul. Dos mares cristalinos às planícies áridas . Subo e desço no coração da vida. Do frio azul e abafado dos quartos de recuperação ao profundo verde das águas abertas. Do coração do oceano livre e liberto à janela fechada dando pra obra vizinha onde o peão e seu cachorro convivem. Paisagens. Todas as possíveis. Todas as paisagens. Todas as passagens. Tenho então todos os caminhos."

 

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