A MÁQUINA QUE FOI MEU CORAÇÃO OU O HAMSTER EM QUE ME TRANSFORMEI

Prólogo

Acabo de ler o seu relato. Li também diversos tratados a seu respeito. Estudos e repetições sobre sua trajetória. Você mesmo não se cansa de se repetir. Repete, repete, repete... por quê, não sei... Você usa as Palavras, e as palavras te usam... deslumbre e admiração, passados 400 anos.
Nessa sua tragédia há mais que ação, há impasse... não há mais espaço para nenhuma traição, não cabe mais nenhum comentário. Se o destino lhe sorri? Não sei dizer ao certo. Agora somos e não somos ao mesmo tempo. O tempo se esgotou inclusive. E não há mais questão. Não há mais silêncio.

Capitulo #1 : A máquina que foi meu coração

Eu me lembro. Eu ainda era eu. Estava na beira da praia.
Eu olhava o mar e o infinito e sentia outras presenças junto a mim. Eu estava ocupado demais comigo mesmo e com meus problemas e, portanto, não sei dizer quem eram ou se eram muitos. Eu os sentia intensamente, mas não tinha certeza se eles realmente existiam. Havia um pano branco, eu me lembro vagamente, ele flutuava no ar e, assim como se em câmera lenta, dançava se enroscando em minhas pernas como se tivesse vida própria. Algo em mim queimava, eu não conseguia localizar essa dor bem ao certo, mas não mais me corroía porque parecia que ia além das palavras, se traduzia num lugar onde o verbo já não fazia sentido... Num lugar onde os sentidos não se traduziam mais em palavras, mas numa coisa muda, num lugar vazio. Ali,  eu permanecia imóvel...
Era assim... Na verdade, era um alívio o que eu sentia... como se meu sofrimento houvesse parido alguma solução provisória...Eu conversava comigo mesmo e com as marolas. E assim meu pensamento voltava a seguir em frente como sempre costumava fazer. E era o mesmo papo de sempre: ? Blá-blá-blá.... Blá-blá-blá... Eu não saía do lugar. 
Ninguém parecia notar minha presença ou sentir minha falta. Eu me sentia transparente, invisível... uma sensação que sempre me foi familiar. Minha solidão se amplificava então... E era uma calma... Um silêncio lento como de um dia nublado e branco quando o movimento do corpo fica em descompasso com o da mente... Um rufar de bumbos surdos. Ao fundo, o horizonte, mas, sobre os meus ombros, minhas memórias descortinavam o espetáculo que eram as ruínas do país em que vivia...
Eu preciso revelar... Tudo isso me irritava...
O que dizer? Como um anjo escutando uma multidão, eu conseguia ouvir milhões de murmúrios, restos de pensamentos, desejos em voz alta, e com isso meus ouvidos se entulhavam.
As igrejas badalavam seus sinos, anunciando um funeral. Uma multidão se agremiava... Quem seria o figurão reverenciado?
Era como se eu debochasse de tudo aquilo...
Uma vez que tudo aqui já se encontrava morto, eu não acharia nada estranho que o velório fosse de todo este país... Eu sempre desconfiei que a presença de tantos fantasmas pudesse formar uma nação como esta... Os fantasmas não interferem no curso das coisas e, portanto, deixam eclodir essa tendência a deixar a bagunça tomar conta. Esse lugar nos é tão familiar...
Murmuro pra mim mesmo... E penso que isso parece fazer todo o sentido... Não parecia haver mais nenhum cidadão... apesar de parecer que estava tudo vivo. Não exatamente bem-disposto, mas vivo. Todo o Senado e a Câmara emparelhados lado a lado posavam com seus sorrisos secos para os fotógrafos oficiais em frente ao caixão. Do outro lado, nenhuma manifestação. A foto revelava que eles já não representavam ninguém, e, portanto, eles também poderiam estar igualmente mortos e enterrados. Eles recebiam salário e só. E roubavam. Ponto. São como marionetes de si mesmos. Fingiam um luto falso que doía ver, choravam lágrimas secas evaporadas antes mesmo de serem formadas. Atores de si mesmos interessados em si mesmos, sem nenhum diretor. Aliás, sem direç?o. Nada a fazer senão encarar a falta de decoro e vergonha... Nada além, senão essa falta de moral e esse egocentrismo. Não havia mais lugar senão encarar a falta de lugar. Não havia pra onde ir, a não ser atrás do cortejo. Era como se eu não conhecesse ninguém. Como se tudo estivesse sem foco. Era como se fosse compelido a estar perto daquilo tudo. Eu não tinha outra opção e, assim, segui aquela gente estranha em sua caminhada fúnebre... Aquilo tudo me atraía, e eu não sabia o porquê.
As carpideiras fingiam o luto vestidas em mortalhas negras. Elas se colocavam ao lado do pessoal do Senado e da Câmara, que marchavam na fileira da frente. Era de uma comicidade mórbida o ato de todos chorarem uns para os outros... O fato é que me parecia que eles não sentiam dor. Ou remorso, não sei. Falsos, cínicos ou hipócritas... que diferença faz? Era emocionante ver que faziam questão de segurar o caixão.
Deboche: ? Era de uma humanidade...
Desfazendo o sorriso: ? Já vi macacos chorarem mais decentemente...
Ouço os gritos no espaço oco, e eles são como lixa no céu... Não há como registrar o que as palavras não alcançam. São somente memórias restritas, verbos raros, comunicações interditas.
Por quem tanto se grita sem mover um fio de cabelo? Para que tantas lágrimas secas?
Vejo esses homens poderosos macerando a nobreza humilde de outros seres mais íntegros, esmigalhando-os... Hoje só se veem os estilhaços, os cacos dispersos dos Homens que foram um dia. A atitude medíocre sublinhando esse desamparo e inspirando outros homens despedaçados a se desmoronarem mais e mais.
? Parem o cortejo fúnebre! Tento forçar o trinco para ver se realmente há um cadáver dentro do caixão. No fundo, não acredito no que está acontecendo! Com minhas unhas, deslizo sobre as farpas recém-formadas na caixa simples feita de cedro. Bato com as mãos na madeira seca, produzindo um barulho surdo. Espero. Ninguém responde. Sinto essa escuridão. No fundo não acredito que testemunho tudo isso. Quero ver se é tudo armado. Se tudo é falso, se é tudo cenário. Eles parecem fingir que não me veem. E eu finjo que não vejo o que eles fingem que fazem.
E ficamos combinados assim:
? Tudo como num teatro. Tudo armado nessa dramaturgia barata. Ao fundo do palco os atores já nada dizem além de textos amarelados e envelhecidos que se desgastaram. Os pergaminhos do roteiro se esfarelam diante de uma plateia vacinada, que não se surpreende com nada. A peça não mais funciona, mas o público ainda comparece... No fundo, o teatro perdeu seu impacto, e sua plateia exauriu sua tolerância...
Eu saio de cena e peço a luz de serviço. É chegada a hora da revelação: que se retome a cena.
Seis badaladas. Ventania.
E lá ao longe, no meio desse silêncio espesso, surge um fantasma. Uma figura azulada caminha sem tocar os pés no chão. Uma chuva rala se interpõe na cena. Essa figura atravessa a ponte do além. Como que levitando, esse fantasma encarna em si todos os seus antecedentes mortos. Toda uma linhagem de gente que um dia viveu, e morreu. Como toda gente que vive e morre e não entende por que vive e morre. O silêncio se estica e prolonga este momento em que não acredito no que vejo.
Silêncio, barulho de relógio.
Nesta hora morta, o mistério da vida se revela em seu oposto. Um morto parece viver através de seu fantasma. Eu olho para mim e estou tremendo de medo. Branco e pálido, pressinto alguma tragédia de calamidade... suspeito do que motiva a minha apreensão... Terei que olhar isso de perto.
Barulho do vento.
Vejo que tens os mesmos traços que os meus. Percebo como te pareces comigo. O que queres tu ao aparecer? O que queres realmente me dizer? Abaixo das ruínas, dessas pedras amontoadas, o meu país. Mas é como se não houvesse mais país, não houvesse lugar algum, como se o tempo estivesse desmoronado. Os ponteiros dos relógios andam fora de suas órbitas.
Andamos apressados demais para perceber o que está estatelado na cara. Todo cachorro, com seu olfato apurado, já sabe. Vejo toda essa máquina de falcatruas se perpetuar ante nossos olhos. Não posso mais falar por ninguém, assinar ou passar recibo em nome de outros . Eu, que no íntimo admito que nada nem ninguém me governam, que me resigno a ver as somas de dinheiro arrecadadas sendo desviadas para saciar a sede infinita das gargantas ressecadas. Um deserto sempre revela sua complexidade, e nessa cumplicidade há suspeitos demais...
Essa tragédia cruza o espaço vazio da não ação, onde nem lutamos nem fugimos, simplesmente nos submetemos àquilo que nos agride. Olhamos absortos essa máquina de falcatruas desviar anualmente 1/3 dos tributos e nada fazemos. Há algo de muito podre no ar... E submissão demais nas esquinas.
Não há respeito algum, muito menos alguma consideração por nossa contribuição.
Preferimos nos deixar morrer lentamente, deixando tudo ruir. O mal impera porque talvez homens de bens, como eu e você, calam-se e omitem-se. Eu preciso te dizer, e digo olhando nos teus olhos que já viram o além: "Preciso de tua ajuda, pois aqui os olhares são curtos..."
Sei que percebes claramente que há corações corrompidos que não nos resgatarão na tormenta... Não nos lançarão o bote no meio do naufrágio. Olharão de longe como se não tivessem nada com isso. O poder se transformou numa central de descomandos. Muita miséria nas mãos ricas, ocupadas em manipular moedas... É muito espelho para egos tão desestruturados...
Essa falta de assunto e essa maledicência complementam esse quadro estapafúrdio...
Há pedras demais a incomodar nos sapatos, sangue demais a escorrer nas escadarias do palácio e nenhum espaço extra para tragédias reincidentes...
? Eu preciso que você pare agora e me encare.
Fica cara a cara com o fantasma (invisível).
Agora sei... Sim... posso ver teus olhos fundos.
Eles me falam de almas cansadas. Me dizem sobre a falta de palavras num mundo entulhado e árido. Me falam da tragédia que se calou com a tua morte..
? Sei que antes de tua morte, ao caminhar, dia a dia, viste sofrimento, beleza e maldade nesta terra...Te embriagaste com vinho, mulheres e festas. Buscaste amplificar o prazer e minimizar a dor... Não há julgamento nisso, entenda, sou igual a ti. Sei que sentes que não conseguiste concluir, e apesar de observar tudo ao detalhe, o tempo lhe foi curto...
Agora, estás por trás do véu, e tantos outros como tu, sábios ou imbecis, morreram sem se entender sobre o ser e o não ser.
Se o destino me feriu, não mais importa. Não posso mais perder meu tempo, pois é tudo veloz e rápido demais. Viver com essa sombra que me circunda, que me limita, que delineia o ponto exato entre o viver e o morrer é entender o que me define.
Uns procuram lucro, outros poder, outros, ainda, aprovação alheia.
Não quero me perder no luxo ou na indiferença.
Há uma diferença cruel entre o que é vida e o que é tempo vivido?
Encaro a tua sombra, vejo o que ela revela e sei que diante do sol, na hora em que a noite transita para o dia, não poderás resistir. Encaro minha sombra, esse lugar sem luz, o que rebate onde o sol não reflete.
Olho no teu olho e apesar da sensação de falar ao sobrenatural consigo te enxergar com os meus olhos mortais.
Confesso que me sinto cansado.
Barulho de Vento uivando.
O que queres tu de mim? Não te basta esse festival de atrocidades a todo momento? Essa repetição de vexames, frustrações e acintes? O exemplo podre só servindo para ilustrar nossa desilusão. Por que não paras um minuto, me encaras olho a olho e me fazes entender essa catástrofe?
Agora sinto cheiro de rato molhado. Há algo de podre por aqui. É como nas esquinas por onde passo, nas ruas dos bairros mais nobres, sempre sinto cheiro de ratos.
Personagem muda o tom, muda de lugar...
Enquanto envelheço, vou construindo uma torre. Tijolo sobre tijolo. Cimento, areia, pedras, água... Entre as camadas parece haver um esqueleto. Um osso aqui, outro ali.
Ao erguer o monumento, vão aparecendo as rachaduras. Meu país é essa ruína. O território está livre e desguardado. São falanges, comandos, partidos e oportunistas, lado a lado. O sorriso do político sendo revelado, mesmo o mais bem-intencionado revela seu cinismo. Sua hipocrisia. Prosseguimos em guerra, silenciosamente deflagrada diante dos acontecimentos revelados nas esquinas, no medo de se movimentar e nesta anarquia interesseira. Não há mais diferença entre a democracia e a ditadura, em ambos perdemos a liberdade. Já vejo patrulhas em alguns focos. Estamos abandonados à própria sorte. O inimigo se armando, engordando sob nossas vistas. Os feudos se fechando no cada um por si... Das sombras da noite escura surgem as manchetes insuportáveis. A luz do dia seguinte vira um antirremédio para a memória. Dilui-se a lembrança na imensidão do esquecimento, e, quando novamente o monstro submerge no lago, vemos previsíveis queixos caídos...
Debochando: Ah! Coitados...
A justiça? Mera simbologia, TOMOS envelhecidos e amarelados... Capítulos esquecidos nas prateleiras da História. Vamos sendo pilhados ano a ano, e nem sempre tudo se reduz a dinheiro...
Agora a máquina emperrou. Hoje não há mais revolução. O Mal prospera sob a omissão do Bem. Somos traídos em todos os âmbitos e há preguiça demais pelos campos. Estamos em cápsulas. Encapsulados e sem unidade.
Não consigo entender o porquê de dar continuidade a essa história. Podem fechar a porta ou apagar a luz. Que esse coração pare agora, ou estale de vez. Meus lábios devem se calar.
Pausa.
Sou como escravo do meu nascimento. Meu país é como um acidente, quando a gente se vê, está ali no meio do desastre sem ter escolhido. Hoje só se escuta o eco desse lamento em rodas de conversas fechadas... A indignação solitária e em pequenos círculos não serve de nada e só nos torna infelizes. Melhor então é se alienar?...
É melhor eu parar de me repetir...
A vergonha é irmã da raiva, filha do medo, netos da tristeza. O mapeamento dos limites de cada um era onde deveria se firmar o fundamento de toda a cartografia moral.
Aqui todos os mapas foram rasgados. Toda rota, comprometida. Não há bula nem receita, nem fórmula nem antídoto.
A cartografia gera o senso de espaço/tempo. É onde nos orientamos. Aqui, há algo que nos escapa. Antes do bom senso, é necessário o senso. Estamos acima da lei e abaixo de quaisquer escrúpulos. Esse excesso de autorreferência e amor-próprio já se tornou impróprio demais! E esse desrespeito ao próximo, constrangedor.
Não há nada nem ninguém que nos responda. E, se não há, é preciso reinventar respostas em vez de reclamar ao vento.
? Deve ser assim que é. Por que é, não sei, mas assim tem sido.
Meu coração é como relógio de corda. Uma vez iniciados meus batimentos cardíacos, o filhote vira menino, o rapaz vira homem, o senhor, idoso. Meu coração é como uma bomba pré-programada, no aguardo dos seus afinais. Sempre foi assim, desde novo, a informação inoculada, o término previsto... Minha vida já veio com a morte acoplada
Essa máquina autônoma em que se transformou minha válvula mitral não mais me pertence. Meu coração não é mais meu, e não está à minha escolha decidir o momento em que essa máquina encerrará suas atividades.
A morte me diz: Até amanhã, talvez. E me bota pra dormir, como uma criança. Dormir, sonhar, talvez morrer e não mais acordar... E se assim for melhor?...

? Estou aqui, sozinho, neste silêncio lento, e só me restam monólogos... É de monólogo em monólogo que todos dialogam. Fico então dentro dessa boca quente e emperrada, os olhos voltados para dentro. Dessa boca fechada, que esquenta, as palavras imploram para sair...
? Fiquem quietinhas, palavras, quietinhas...
Não me é possível escolher entre ser humano ou pedra, animal ou planta... Queria nenhuma dor, nenhum pensamento, nenhum sentimento, nada, sensação nenhuma, por um tempo. Que este meu corpo não gerasse nenhum desconforto, nenhum constrangimento. Depois tudo voltasse ao normal... Nem besta, nem humano, nem divino. Queria poder me esquecer por alguns momentos.
Não posso me permitir ser mais um mimado.
Meus projetos de felicidades estão equivocados quando tento ter tudo sob o meu controle! O presente me é roubado quando me prometem o futuro. Minhas expectativas não podem me aprisionar, as coisas não são e não serão da maneira que espero. O passado ... passou, foi, deu, não deu. Danou-se. Não posso me apegar. Aqui, neste lugar sem alças nem segurança, é onde estou.
Três badaladas. Pausa.
? Mas por que retornaste a mim? O que teu fantasma quer realmente me dizer? Por que nem a morte te fez então descansar? E me procuras assim, me arrepiando a nuca?
Tento ver o fantasma no espelho. Enquanto ele não se revela, vai minha alma, permanece calma!
Meu drama é essa repetição. Sei que sou um eterno reincidente do erro. Sou aquele que tenta aprender, mas impaciente sinto que tudo demora. Sei que vim a este mundo para tentar me entender, apreender, ser o melhor de mim, mas terei de tentar e tentar por toda a vida...
? Ao teu olhar, não sei se devo rir ou chorar. ?
Um manequim com trapos rola pela cena.
Lembro-me de minha noiva, seu vestido de noiva era uma comédia, encomendou ao melhor atelier esse vestido, com anos de antecedência, e, no meio do caminho, seu noivo desencantado, o noivado desmantelado. Hoje só se veem os trapos. A noiva, envenenada por seu próprio pensamento. A opinião alheia tomou proporções deformadas, a autoimagem distorcida virou cimento recém-formado como âncora amarrada a seus pés, seu corpo indo ao fundo do lago rapidamente, as borbulhas subindo urgentemente à superfície. Ela desistiu da travessia antes do término do jogo. A submissão confundindo-se com a vaidade... A contaminação do vírus da desconfiança a colocando à margem da própria vida. O olhar articulado atuando dissimuladamente, como o de uma atriz. Ainda não inventaram maquiagem suficiente que ocultasse o seu cadáver pré-datado. E eu lhe pergunto, por que tanta pressa?
Vira para o lado, onde está o manequim.
Desististe, querida? Devolveste à gôndola dos supermercados esse amor? Porque podes retornar tudo à prateleira de origem, sabias? Pelas leis do consumo, você pode devolver qualquer produto, querida... Mas não pode estar usado, certo?
E eu era todo teu. Toda essa máquina corpórea lhe pertencia e parecia estar funcionando para ti. Eu já não me pertencia. Qual falha trágica se deu por aqui?
? Vejo a noiva morta na praia. A noiva maquiada com os olhos abertos e secos na beira do mar. As unhas do pé com esmaltes vermelhos pela metade. O esmalte descascado e carcomido pela maresia, misturado a farelo de conchas. A pele branca como a areia outrora virgem da praia. O batom intenso borrado pelo sal ainda tenta encobrir os lábios, agora sem cor, cobertos por uma película branca.
Empurra o manequim para fora da cena.
? Hora de voltar ao castelo, onde só restam destroços, o que me deixa envaidecido. Num mundo todo edificado, as ruínas indicam a única possibilidade de reconstrução. Eu, o engenheiro dos escombros, de pé no que era a torre principal, grito ao mundo que me escute, ao menos hoje. Sei que tudo agora parece insensato, que tudo é volátil e frágil, não importa. Eu peço que me escutem, ao menos hoje.
Vejo o que um dia foram certezas rolar as escadarias do palácio. As máscaras todas penduradas no camarim. Onde um dia havia luxo e escárnio, hoje escorre sangue. Nada. Nenhum direito. Nada seu.
Vejo as formas de conduta equivocadas a gerar repercussão por todo o país. Cópias desses corações corrompidos vão se amplificando, se multiplicando ad infinitum, não deixando restar mais nenhuma vegetação. A desertificação vai se alastrando.
Se estamos perdidos nas nossas castas, já não sei precisar. Só sei que nada fazer me gera NÁUSEAS. Possivelmente ninguém vai se lembrar de nada. Nem eu, nem você. É como uma proteção silenciada, uma estratégia de não reação previamente combinada com todos, subliminarmente. E assim passa-se do ponto. Passa-se o ponto.
Os jornais se perdem em repetição O registro perde o sentido quando a memória fica curta demais De que adianta gritar acusações de desrespeito e injustiça se se esqueceram de avisar que não há direito algum. A sua cidadania só lhe permitirá pagar mais e mais impostos que lhe serão quase todos roubados. Onde simultaneamente você será patrulhado, auscultado, extorquido, ameaçado, tolhido e achará que tudo não passa de fantasia. Somos cegos, temos que admitir, e sofremos mais que o necessário.
Escuto o eco do meu sangue circulando em minhas veias, ele lembra o mar.
Reinauguram-se delitos e catástrofes. Escândalos repetitivos preenchem novas estrofes de capítulos impunes e viram fatos banais. Só me resta suspirar...
Hoje está claro: não há mais nada no saldo dos registros históricos. Nada na lápide da História ocidental. As máscaras se liquefizeram. Escorre na escadaria dos poderes um líquido suspeito de segredos e sussurros.
O mundo se divide.
O amor é uma mistura que caminha em paralelo ao mundo da verdade, que é duro. O amor nos faz sentir o sabor de que há saída. É por onde nascemos. O amor é a única solução corrosiva da violência inerente à existência. Presa e predador. Simplicidade da sobrevivência. Crueldade da natureza, que em seu método destrutivo extingue o mais fraco sem propósito algum.
Animal mata animal / A natureza estimulando o egoísmo/ Não há compaixão/ Não há tréguas / É matar ou morrer. O altruísmo só é feito com interesse. Há sempre sangue demais jorrando na escadaria da História natural. E, se há farsantes demais na natureza, animais que forjam, que enganam outros, tudo aqui no reino dos humanos se repete. Não somos inéditos em nada.
A verdade ergue paredes em nossa cara./ Demarca o limite da realidade
Vou em direção ao mundo contemporâneo repleto de vertentes e abismos. Agora tropeço em minha solidão e grito minha dor nos campos ainda livres. Agora as grades dos portões dos prédios vêm como Jaulas pro zoológico que se tornou esta cidade. Agora a História se esgota e, se não há espaço ou coragem, melhor inventar desobediências civis imediatas, propondo novas diretrizes...
É chegada a hora de acabar com a festa da volúpia dos olhares nublados em direção a dinheiros alheios/ Encerrar de vez essas Orgias de prazeres egoístas implodindo a possibilidade de coexistência. Muitos pontos cegos continuam sendo erguidos para lamentar descasos improdutivos. Não quero mais sofrer em vão/ Não quero mais morrer por nada assim tão aos poucos. Não quero queimar minha vida ao acaso...
O lugar sem luz é o lugar sem foco, onde o medo do escuro me faz inventar monstros surgidos do vazio ou do ralo da piscina...
Prossigamos no silêncio dos que não têm nada a dizer. Continuemos no discurso esvaziado daqueles que não querem mais nada ouvir. Fiquemos então no discurso inflamado de egos clamando por atenção. Não há mais nada para mostrar nos museus do futuro. Não há mais memória a preservar. Não há mais motivo.
As gerações se transmutam e do passado só nos restará o esqueleto, e mais na frente nem isso, só poeira...
As tragédias servem de lanterna neste tempo escuro. Ilumina os recônditos da alma, aqueles lugares empoeirados que preferem ser esquecidos...
E ali estamos todos, cheios de braços cruzados, sentados num barril repleto de explosivos, aguardando a próxima detonação... Ali estou eu, armado de lamúrias e impropérios na ponta da língua, vendo o combustível e o fósforo convivendo lado a lado. Apenas observo, apreensivo. Fico surpreso por premeditar a explosão, e nada fazer. Sei que não tenho nem armas nem trincheiras. Nada além de um pulmão que respira e esse olhar de espanto... Nada além dessa vontade de agir e seu impasse.
Sei que estou sozinho, e isso já faz tempo. Sei que não estou sozinho.
Há uma luta em meu coração. Eu não me eximo de mim mesmo. Reside naqueles que vivem no presente essa tarefa de defender com os dentes aquilo que os preservará... Há algo que em mim não desiste. Meu coração reage a cada novo desrespeito, apesar da tontura e do enjoo. Não posso renunciar apesar de o círculo da tragédia se ampliar mais e mais. As letras unidas jamais serão vencidas.
? Mas o que me dizes? O que tua presença me induz , me diz que ficar aprisionado em meus pequenos dramas não adicionará ao mundo solução alguma.
Começo a ouvir as explosões. O corre-corre nas ruas, a derrubada dos muros. O Senado invadido. Os ministros alheios a tudo o que vivemos sendo pegos de surpresa. Um a um, eles vão caindo. Eles estão cegos demais para ver o que está se dissolvendo à sua frente. Os poucos que se movimentam, resistentes à anestesia geral, são movidos por essa repulsa à falta de respeito constante e derrubam a primeira peça do dominó...
É dada a partida a um movimento em cadeia.
Na casa de máquinas a temperatura sobe. O resto do navio desconhece o fato. Não há comando nem marinheiros. Nem passageiros, só náufragos. O Brasil é uma prisão. Marginais e inocentes são colocados na mesma cela indiscriminadamente. É chegada a hora da rebelião. Anjos e demônios postos lado a lado.
Pausa
Barulho de fantasma, correntes e ventania.
Chegam novamente as badaladas da hora morta. No meio da plataforma, sinto o vento frio. Olhe, ali estou eu vendo o fantasma a tagarelar por entre escombros. Tudo tão estranho...
Ele está acenando para mim.
Sei que minha vida vale menos que um alfinete... Já não tenho mais medo de nada. Nada mais a perder. Chego mais perto, agora quase querendo tocar em sua armadura para ver de que matéria é realmente feita. Ele não parece se importar.
Cara a cara com o fantasma.
? Mas por que, ó corpo morto, tua tumba, ainda não gélida, não te reteve? Aonde queres me levar? Queres então me avisar de alguma coisa ? Por que tua semelhança comigo mesmo me assusta? Por quê? Sei que há segredos indizíveis de onde vens... Desse além onde estás preso deve haver relatos que hão de rasgar-me, congelar meu coração no meio da batimento, gelar minha espinha, fazer meus olhos saltarem na mais breve imagem descrita.
Agora, sinto como se o tempo tivesse ralentado com os seus minutos esticados.
No meio da plataforma há uma superfície que reflete imagens, me aproximo... Tenho que admitir que não compreendo muitas coisas que me acontecem. Ao olhar mais de perto, não consigo nem ver o fantasma refletido nem a mim mesmo! O espelho deve estar sujo ou com algum defeito... Não, definitivamente, não há imagem alguma! Não há ninguém ali! Estou então... Como não estou ali? Estou então em outro lugar, devo ter me mudado, pois parece que não me encontro mais dentro de mim!
Apalpo meu corpo e admito que por algum momento fico em dúvida se realmente existo. A verdade é que a minha leitura da realidade pode sempre me iludir, mas espero escapar do cinismo, ao ver que as coisas que experimento não me fogem. Não quero mais buscar escapismos.
Olho novamente no espelho. Meu pensamento, ainda intenso, reclama da incoerência.
Estou aqui?
Cai a ficha...
Vejo boquiaberto que o fantasma é meu!
Eu sou o fantasma que balbucia. Eu sou aquele que morreu antes de o meu drama ter terminado, que partiu antes mesmo de ele ter se revelado.
? Nossa! Como pude não ver? Agora as imagens me vêm, uma a uma... E é com espanto e taquicardia que me dou conta... Eu preciso sentar. Eu preciso pôr os pés no chão, qualquer coisa que me prenda a alguma realidade que me contenha. O limbo tenta me seduzir, me chamando para esta ausência de demarcaç?o. Se morrer é perder os limites do discernimento, valha-me uma pausa. Eu não posso ficar suspenso entre realidades dissonantes.
A avalanche de imagens dos acontecimentos me assolapa. Uma a uma se desfolham diante dos meus olhos. Lentas ou rápidas demais, elas me revelam o inesperado: eu estava morto!
? Eu vejo agora os acontecimentos como num flashback.
Agora entendo... Eu ia adoecendo aos poucos. Eu, que sentia aquelas pontadas no estômago e aquela náusea diariamente, e médico nenhum descobria as razões.
Era após aquelas consultas que minha solidão então não tinha mais tamanho. Não havia diagnóstico. Não havia explicação pro que eu sentia.
Apesar da incompreensão, não reclamei da minha sina. Eu seguia o tratamento que os médicos inventavam. Meus órgãos iam se paralisando. Um a um. Ora o pâncreas, ora a vesícula... Uma dor aguda debaixo do peito direito. Eles também não entendiam o que estava me acontecendo. Achavam que eu estava dando corpo ao conflito que se passava em minha alma. Mas, agora, tudo se revela: as imagens uma a uma sendo projetadas aqui, na minha frente. Close na colher de prata. Abertura da panela de alumínio. O saquinho branco. Cena da colher retirando do saco um pó branco. Mão levanta a tampa da panela. Pó em minha comida. O olhar desconfiado do meu assassino para ver se alguém o observara... Um storyboard de um filme de horror. Eu fora envenenado lentamente em meu dia a dia. O pó branco não era açúcar ou sal. Era arsênico! A substância química da morte invisível, que mata sem deixar o rastro do veneno nem revela com clareza a causa mortis...
O que me parecia uma doença terminal era uma assassinato muito bem articulado, completamente disfarçado.
Agora vejo meu assassino colocando o veneno diluído em minha comida, dia a dia. E ele morava em minha casa. Agora eu estava cada vez mais envenenado. Eu comia, deglutia aquele tempero metálico em minhas refeições, a cabeça longe, os pensamentos dispersos. Apesar de não consciente, eu permiti, de alguma forma, que essa traição acontecesse.
Agora entendo a cena do funeral. Eu era o figurão reverenciado dentro da caixa de cedro!
Minha juventude me sendo roubada aos poucos num lento assassinato. O suspeito com a face desfocada. Minha alma sendo encurralada num ambiente estreito.
Era estranho, pois, quando eu estava em tratamento, longe de casa, eu realmente melhorava! Mas agora está claro! Tão óbvio! Quando estava no hospital, eu n?o era alimentado pelo assassino, e meu organismo se recuperava em parte. Ninguém sabia explicar. Até que um dia eu cansei do tratamento e dos médicos e assim corri de braços abertos para o meu assassinato camuflado de morte natural. Agora eu vejo a verdade, eu o pego em flagrante, seu olhar maligno em sua traição diária, o brilho da colher de metal e a fatalidade do arsênico sendo despejado como sal em minha comida... Mas era tarde demais, eu estava intoxicado irreversivelmente.
Neste dia a dia desenganado, eu era observado por aqueles que me viam morrer. Como um hamster estava eu ali, ávido por contato. Enganado como um ganso carente, vinha sendo alimentado pelo meu assassino.
Causa mortis: "Assassinatus gradativus"!
Apesar de me elevar, deixo a ira me devorar pelas beiradas. Agora fica claro que fui traído demais em vários âmbitos...
A perda de tempo do ódio que sinto por esses míopes torpes envenena meu sangue agora ectoplasmático, pois fui morto. A vingança é inútil, apesar de ser um alívio.
Então, sou filho nobre do povo assassinado. Mais um. E como nenhum outro. Sou como todos e ninguém.
Há um quê de silêncio, de suspensão, a respeito dessas vozes que vão sendo silenciadas. Couro com couro , pele com pele. Quem quer saber de minha morte? Quem quer saber do assassino? Passado o tempo, não há mais nenhum tribunal interessado em minha tragédia. São assassinatos em série, produzidos em massa.
Sou e não sou. Não é mais essa a questão. Não me importam sonhos errados nem histórias tortas. Muito menos tragédias antecipadas.
Então, eu sou o fantasma do fantasma. Minha consciência ainda resiste, e inexplicavelmente me observo.
? Eu me vejo passar pelo tempo, impiedoso... Saio da passarela da vida e ingresso, pelo longo corredor da morte, em direção ao que desconheço. Caminho por entre as sombras, vejo a multidão de aflitos e seus medos. Eu sei que é difícil conseguir esperar, aceitar o que se encontra na frente. E eu os observo assim...
Sei que não posso dar rumo às ideias de modo precipitado. Mas nunca estaria preparado para morrer. Morrer não é algo que se ensaia. Meu cadáver não pede licença para se despir de meu espírito na hora da minha morte.
Ele se apodera de minha vida e coloca um ponto final em meu corpo. Meu corpo é somente um veículo que carrega minha alma no fundo. Depois, ele é só uma carcaça a ser dispensada.
Já não sei se é calor ou ardência o que sinto no diafragma, talvez seja somente o fantasma do cansaço por respirar tantas vezes.
Apesar de quente, minha boca prova o silêncio. Nessa tragédia sem ação há palavras demais. E isso indica, com um cheiro típico, que fui traído. E que estou morto.
Minha alma se encontra no meio da escada de incêndio, sem saber se sobe em direção aos labirintos dos caminhos obscuros ou se desce em direção à porta de emergência que ela própria inventa... O inferno é frio. O céu, apenas uma metáfora. O purgatório, o lugar dos comedidos.
E eu, que já estive em muitos lugares, ouvi muitas historias, presenciei realidades distantes da minha e ouvi palavras demais, me cansei um pouco desse excesso de verbo.
Agora me agrada o silêncio.
Quanto tempo me foi subtraído? Nunca irei saber... Sei que queimei vida com sofrimentos inúteis, conversas tolas, pensamentos tortos...
Por que meu pensamento ainda insiste em ter consciência de si mesmo se não há mais oxigênio? Por que meu coração acelera se não bate mais sangue em mim?
Com as mãos sangrando, rasgo os vestígios do homem que fui. Não há mais lugar para as minhas indecisões... As opções estão frente a frente, não há mais tempo a perder...
Se sou um fantasma e danço com a minha própria caveira, deixo de ser o que era então. Não sei o que fazer, estou onde sou, mas sou não sendo.
Não há mais lugar para mim em meu drama. E não há mais questão alguma! O resto é silêncio. Tenho que aceitar que agora eu talvez seja somente uma sombra, e que estou além de qualquer fingimento e pronto para confessar todos os delitos.
Agora estou pronto para aceitar todos os acidentes, e assim as saídas se revelam. Onde estou é o que sou, e sei que sou quase nada. Ao perceber isso, não me sinto mais encurralado.
E espero ter vivido a ponto de assinar meu nome completo em minha tumba.
De não ter vendido minha alma por confortos ou mimos. Tentei ser tudo o que podia.
O ator vai a um canto do palco, criticando a cena:
Sou nada e tudo. Todos e ninguém. Os contrários vivem em mim. Eu, o ator rebelado contra o autor deste drama, aprisionado entre palavras premeditadas. Eu, o ator, sempre a revelar o que um dia serão pedaços de papel a esfarelar, lembranças a ser esquecidas...
Agora, nada mais rasga esses silêncios típicos de domingo e esses movimentos lentos no canto da cena. Agora, continuo nos castelos, uivo como louco em direção ao vento, que ele leve meu lamento pra outras bandas. Eu mesmo já não o aguento... Escuto o eco. Agora, repito a tragédia. Sou um eterno reincidente do erro. Sou aquele que tenta aprender e não consegue. Sou o que sempre tenta se entender, se perdoar, se redimir. Sei que me liquefaço em repetições.
Preciso delas para avançar, por mais que pareça retrocesso.
Reconstruo-me na ruína, são com os destroços que me renovo. Sempre de pedaço em pedaço que me refaço...
Agora, não há mais ânsia de futuro... Finalmente estou aqui.
O pavio da vida foi queimado. Difícil julgar quando às vezes em vão, quando não. Até que um dia, por acidente, acaso, escolha ou desgaste, minha chama se apagou. O tempo continuará levando as pessoas que amei. Se os encontrarei novamente, ainda não posso dizer. Vejo os vivos sem saber o que fazer da própria vida. Com dificuldades, não damos valor ao tempo enquanto tempo havia, e, quando vemos, ele se esgota.
Vejo que há corações demais a bombear sem saber por quê. E isso parece ser mais grave que a minha tragédia: estar aqui queimando vida em vão.
O futuro, com suas dúvidas, sempre cobra o preço do passado certeiro. No meio do caminho, o presente então se revela, em sua brevidade inevitável.
Sou o passageiro do inédito, no trem da impermanência, no vagão da instabilidade.
Minha hora acabou.
Agora, os anjos da morte me rodeiam. Se aproximam e se afastam, me veem de perto e de longe. Me convidam a encarar o espelho, pela última vez. Não há outro caminho senão encarar o próprio reflexo e ver que tipo de ondas reverbera. Por mais que não seja mais óbvio, por mais que não seja nítido o reflexo. Agora é repleta de paz minha sensação.
Agora?
Agora posso ir. Agora vou.
Fui.
FIM

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