Ricardo Chreem

2000 MENOS NADA OU DIAS MAIS DIAS MENOS

“2000 menos nada ou dois modos de ver o mundo neste tempo” foi seu primeiro livro publicado, lançado em 1999. Prosa poética sobre ser e estar no mundo a beira do ano 2000, propunha um testemunho em duas partes: uma mais poética e outra mais ácida, onde temas como o tempo, solidão, identidade e critica social se misturam numa única argamassa. A peça “Dias mais, dias menos” assim como o curta “ Eu me recuso ao papel de abajur” utilizam trechos deste livro.



1. Tempo: veneno lento


O tempo não pára de passar...
não pára... não pára...
Os dias não param de correr,
você ali correndo junto...

Os calendários se despindo,
os ponteiros dos relógios rodando, rodando...

Pessoas nascem, pessoas morrem,
seu cabelo cresce,
você ali, de novo, cortando as unhas.
O tempo passando,
você ali correndo atrás,
correndo, correndo...

O tempo nos assassina a cada dia,
e nós o matamos a cada minuto.

Sem ocasião pra explicar a nossa alma dividida,
as nossas dúvidas, as nossas dívidas...

O tempo se disfarça em calendários,
se desdobra em planos, viagens, promessas íntimas.
Se congela em pinturas, vídeos, fotografias...
Mas quando o tempo passa não há regresso
senão o desamparo frente ao presente recém-formado,
frágil, incipiente.


Nossos corpos vislumbram a ação do tempo.

Denúncia do futuro do imperativo?
Conseqüência do pretérito do passado mais-que-imperfeito?

E então?

Nado nisto tudo e não naufrago,
nado nestas ondas que me impelem em direção ao futuro.
Este futuro que a cada dia se despe e se veste de presente.
Este presente que a cada dia se despe e se veste de passado.

O tempo é veneno lento,
destilado na lógica insana da rotina,
consumido em suaves doses homeopáticas.

Eu me locomovo no espaço e envelheço...
Se o sentido de tudo isso me fosse acessível...

O tempo é uma questão.
Deveria ser também a solução.
Inclusive deveria vir
com uma bula acoplada, indicando:
Modo de Usar.

Este nosso tempo,
estranho e tão familiar ao mesmo tempo.

O tempo ficou mais rápido ou sempre foi assim?
Ou aquele tempo lento e espaçoso
era o tempo da minha infância,
quando não havia nem futuro nem passado?

Os dias passam assim:
um após o outro...
Entre eles existe algo que os recheia,
algo que cimenta um dia no outro.

Como num castelo de cartas,
vão se empilhando uns sobre os outros, frágeis,
até que num certo dia, um vento mais forte vem
e tudo cai por terra...

Os dias passam assim:
Mais um dia, menos um dia.
Um dia a mais, um dia a menos pela frente.
Uns dias mais, uns dias menos.
Uns dias mais ou menos.



O meu destino
e a minha experiência aqui no agora
é o tempo.

O tempo é como um cavalo selvagem.
O destino, possibilidades ao acaso.
O acaso, uma bula ilegível.
Sou um homem e todo o acaso que transporto.
Como um passageiro com a mala violada.
Sou um transporte de algo que não sei.
Sou um destino velado.
E então?





Então diante da vastidão do mundo,
da rapidez estonteante dos ponteiros dos relógios
que não param de rodar,
do impiedoso tempo que meu corpo delata,
por vezes, tenho tudo a declarar.
Eu preciso encontrar
a saída dos labirintos que o meu tempo criou em mim,
destes caleidoscópios de futuros e passados
que por tantas vezes me tiram a consciência
do que está bem na minha frente,
agora.

Chega desta salada temporal,
deste liquidificador de pretéritos.
Ando cansado de não estar aqui, neste momento!

O tempo é tudo o que sou
e eu não vou mais me atropelar.
Os tique-taques dos relógios não vão mais me ameaçar
com suas setas ininterruptas.

Melhor assim? Melhor pior assim?
Como assim melhor pior?

Eu não posso desperdiçar este meu tempo
na repetição viciante
de atitudes já demonstradas inúteis
no sentido de me proporcionar alegria.

Eu preciso de alegria, não de alegorias.

Nada a perder senão o tempo,
senão o tempo de ir em direção
ao inevitável fogareiro das datas,
de girar no carrossel dos eventos,
e trepidar na imprevisibilidade futura.

Nada a perder senão o tempo de tentar.
Jamais recusar o tempo dado, jamais recuar...
mesmo que não dê, não arregar...

Nada a fazer
senão conjurar com o universo
em prol do meu êxito,
que é tudo o que espero desta vida.

Se o sentido disto tudo me fosse acessível...
Mas só há a sensação de silêncio frente à dúvida...



Tudo se transforma rapidamente.
O que era água
vira chuva,
que vira vapor,
que vira neblina,
e que no final se dissipa com o vento.

Tudo em movimento,
tudo momento.

Jogue uma agulha na areia, e ela some.
Deixe a situação te levar, e ela te domina.
Esqueça uma lâmina aberta, e ela te corta!

Em que me transformei?



Eu me locomovo no espaço e envelheço.






2. EU, um passageiro do estranho



Eu sou só um ponto, um pó na imensidão.
Só eu sou eu.
Só eu sei o que eu sou.
E eu sei daquilo tudo que me constitui,
daquilo tudo que me faz ser como sou.
Só eu sei dos meus paraísos,
dos meus desencantos.
Eu sou só como eu o sei.
E eu sou só um ponto, um pó na multidão...

E eu continuo tentando,
vivendo a minha solidão porque me é inexorável...
É onde eu moro, onde eu durmo,
é onde eu acordo.

Só eu e mim sabemos como somos sozinhos,
como somos todos sós.
Só eu trafego no aquário das minhas decisões,
das minhas opções.
E ninguém vai viver por mim
o meu eu comigo em mim.
Comigo, Omigo, Migo, Igo, Go , O!!!

Quantas solidões,
quantos pequenos dramas
espalhados pelo mundo.
E ninguém vai viver por mim
a dimensão do drama que eu vivo.
Só eu sei a dimensão do drama que eu vivo.
E só eu o vivo realmente.

Eu continuo sendo eu...
Eu comigo mesmo em mim.
Eu, Migo e Mim,
nós três vivemos tantos desencontros...

Eu.
Eu.
Eu, palavra mais dita do mundo,
segundo pesquisas feitas por agências telefônicas.
6 bilhões de eus num mundo dominado pela imagem.


Eu sou um passageiro do estranho
no eclipse do inédito
em busca de calor...



3. Sobre as infinitas possibilidades



Ando meio tonto entre tantas ruas tortas.
Vejo tantos rostos diferentes,
tantos tipos tão distintos, tão bizarros, tão estranhos...
E, às vezes, me pego perguntando a mim mesmo
se o estranho não sou eu...
E digo pro espelho: O estranho não sou eu?

Queremos tantas coisas, tantas soluções.
E é tudo tão claro, tantas confusões.

Tantas almas pelo mundo,
com seus desejos secretos,
se locomovendo neste labirinto sem destino,
nesta charada sem resposta.
Pequenos mundos,
altos castelos,
se interligando por frágeis pontes levadiças
que sobem e descem...
Descem e sobem...

Somos ilhas.
Sonhos em pedaços procurando seus encaixes,
quebra-cabeças de anseios,
flechas desejando um alvo,
que só param de arfar
quando não mais pulsam...
Somos pequenos pontos dispersos e esparsos pelo
ventilador da história...

Somos pequenos pontos
que ilustram o mundo,
que pontilham,
que sublinham,
que desejam,
que almejam coisas
de todas as maneiras
em todos os tempos.

Todas as intensidades
por todas as cidades,
se locomovendo de um ponto a outro,
incessantemente.


Será
que
Deus
poderia
dar conta de
6 bilhões de almas
ao mesmo tempo?



4. 2000 menos nada



E essa gravidade!!!
A verdade é que a lei da gravidade me deixa exausto!
Tudo em meu corpo tende a cair,
as minhas pálpebras,
as minhas bochechas,
as minhas, os meus...
Tudo me prende ao chão!

Como eu gostaria de brincar de ser Deus
e abolir de vez a gravidade...

E este ano 2000 que se aproxima!
Um novo dia!

Um novo dia?
A história acaba e começa de novo...
agora mesmo, Aqui!

Todo tipo de música já foi tentado,
todo tipo de governo,
todo tipo de penteado,
todo sabor de chiclete de bola...

Tudo já dito, desdito,
contestado, superado, repetido.

Tão pouco o tempo, tão curta a história...


O mundo é como um caleidoscópio.
Cada um vê o que quer,
o que pode.

Como num cristal fragmentado.
São vários ângulos,
vários prismas.

Em cada foco
uma mira.

Em cada mira um alvo,
um motivo de concentração.

Como uma teia.
Uma tela hipnótica.
Cada qual com a sua atração:
a aranha, a teia, a mosca.
Somos tudo ao mesmo tempo.

São multidões...
Gente e mais gente no mundo.
Emanações vibrando pelo éter terrestre.
De mar a mar se interligando,
na fantasiosa contagem regressiva
em direção ao ano 2000.
Nem Jetsons nem Flinstones.
Estamos.
Eu, aqui de minha varanda imaginária,
por mais que agora já sejam anos além,
registro para o futuro
a sensação da virada do milênio.
Para gerações que não compreenderão
os motivos e as formas deste registro.
Quero falar o que vejo,
por mais que seja através das lentes
dos meus óculos inexistentes.
Através das lentes do meu cristalino,
pelo que vêem meus olhos.

Um mundo que roda em seu eixo míope,
que se repete em seu renitente tropeço.
Que roda rápido em seu profundo
processo de estabilização.
Tudo busca o equilíbrio.

Informações de todas as formas sobre todas as
coisas em todos os muitos jornais e em todas as
formas de comunicação propagando e alardeando
todas as idéias sobre todas as coisas
neste mundo enorme.

Em suma,
tudo e nada ao mesmo tempo aqui,
neste agora de novembro de 1999.

Escrever ao futuro é algo poderoso e divertido.
É transcorrer e transgredir o mundo físico.
Mensagem aos futuros navegantes:
Acima de tudo: Atenção.

Tudo pode ser muito obscuro,
dependendo do prisma,
do grau das lentes da faceta pela qual se olha no cristal.

A violência será sempre uma forma de desamor.
A intolerância à discordância é inteiramente perniciosa.
A unanimidade burra é completamente inconseqüente.

A hipnose não consentida é algo inadmissível.
Um mundo de zumbis geraria um disparate.
Um mundo à beira de solução,
porque à beira do colapso,
pode ter perspectivas.
E, portanto, ser bom.

Quando os limites se ampliam,
os muros são demolidos,
como dentes de leite
que se autodestroem.

São bilhões de batimentos cardíacos
em todas as velocidades.
Tempos de evolução. E portanto de crise.

O novo milênio indica que superaremos o cataclisma?
Seja a que nível isso vier,
seja de valores morais ou físicos,
iremos além.
Minhas inquietações aguardam novas soluções
e espreitam curiosas o desenrolar dos acontecimentos.

Tantas vontades, tantas verdades.
Um mundo sempre a se revelar,
um mar de todos os caminhos,
embriões de todas as possibilidades.

Um jogo de destinos se entrelaçando,
revelando então os resultados
de tamanho emaranhado.



Rasga-se a cortina.
Tropeça-se no degrau.
Encara-se o escuro frente a frente.

São véus que se desfolham como cebolas,
quebra-cabeças que se despedaçam ainda mais...

É precisamente o infinito
o número de suposições possíveis para explicar
a ordem e a desordem deste mundo.

E o que nós vamos fazer?

O que nós vamos fazer
pra preencher outros mil anos?

15 bilhões de anos
não foram suficientes para explicar
o anterior nada inconcebível.
A ausência de tudo
que preconizava o nascimento no mundo,
o início do princípio dos tempos.

Onde até então não havia passado,
porque o tempo não acabava,
e não acabava porque nem chegava a começar.

E o que sou eu diante de um big bang ?
Diante do nascimento do primeiro
milésimo de segundo do universo?




5. O que é você?



De dentro do meu carro,
este meu aquário com rodas, eu vejo tudo...
Um turbilhão de novidades
junto ao caldeirão de primitivas atitudes.

O que é fax ?
O que é internet?
O que é cópia colorida?
O que é telefone celular?
O que é colar uma orelha humana num rato
por meio de processos de engenharia genética?
O que é engenharia genética?
O que é usina nuclear?
O que é solidariedade?
O que é amor?
O que é você?

O que é você?


Tudo o coração do homem concebeu.
Tudo o pensamento humano abordou,
das inconcebíveis e abomináveis ideologias
aos impensáveis projetos admiráveis.
Tudo que o sofrimento humano revelou
do trágico segredo do homem
iluminou nossas cavernas mais escuras.
Nem tudo perda,
nem tudo ganho.
A alma dividida permanece a mesma.

Os livros não queimados continuam abertos,
à espera de quem os procure.
As idéias, ilimitadas, continuam flutuando
no espaço aberto das discussões sem fim.

Séculos e séculos de história,
de crueldade,
de erros,
de crimes absurdos,
de descobertas, aprendizagem, conquistas.
Os séculos ilustram quem somos.

Espelho para quem precisa de espelho.

Tantas coisas mudaram em tantos séculos.
Menos este clímax no interior da nossa espécie,
este potencial violento latente
sempre em ponto de ebulição.
A guerra, eis mais uma de nossas péssimas aquisições.

Por que não conseguimos encontrar
a fórmula da coexistência pacífica?

A capacidade de ter esperanças
nada tem a ver com a capacidade de agir.
Separa estas duas possibilidades um grande abismo.

Talvez possamos fazer algo mais que reclamar.

No fundo, no fundo, somos átomos de carbono.
Somos hidrocarbonetos.
E um pouco mais.


Não compreendemos nada...

Não entendemos a sucessão dos eventos,
o encadeamento dos fenômenos que estão em nós
e na nossa frente...
Simplesmente não...




6. A sucessão dos eventos


Rápido.
Muito rápido.
Rápido demais.
Demasiadamente rápido demais.
Mensagens incessantemente enviadas numa velocidade estonteante para esta nossa mente lenta.
Somos mentalmente lentos para a rapidez da sucessão
dos eventos,
do encadeamento dos fenômenos que não param de
jorrar numa constante.
Mundo impressionante.
Deveras decepcionante,
mas com certeza inebriante e fatalmente rápido.
Rápido demais.

Eu não consigo processar esta avalanche de
informações que não param de entrar e sair, de sair e
entrar nesta minha caixa craniana.

Fax, comida, relógio, dinheiro, miséria, televisão.
Telefone celular, dentista, contas, moda, avião.
Trânsito, mídia, aids, violência, álcool, solidão.
Microondas, carro, alegria, fome, corrupção.
Política, supermercado, assaltos, seitas, medo, tesão.






Minha retina registra um milhão de imagens.
Minha mente cadastra um milhão de informações
e agenda um trilhão de afazeres.
Quando eu coloco a cabeça no travesseiro,
às vezes não consigo dormir.
Fico ali agendando, processando e
reprocessando sem parar...
Meus cérebros.

Meu cérebro se divide em três.
O primeiro, responsável pelo instinto de sobrevivência,
pelas necessidades fisiológicas.
O segundo, ligado ao pensamento lógico,
projeção espacial, cálculo aritmético,
matemático, razão.
O terceiro, relacionado a esta fragilidade chamada emoção.

Chamemos o primeiro de Mim, o segundo de Eu e o
terceiro de Migo.
Mesmo com três cérebros
eu não consigo processar tanta informação!

Eu, Mim & Migo.
Nós três vivemos tantos desencontros.

E assim vivemos o nosso cotidiano,
neste elétrico mundo vivo
que está muito longe do paraíso.
Onde você realmente quer chegar?
O que você realmente quer dizer?
Onde você quer estar?
Quanto tempo isto vai levar?

E então, quando isso acontecer, o que você vai dizer?
Onde você vai estar?
O que você vai ter?

O que te faz acordar?
O que te faz querer?
O que te move?
Hã?
Como? Quando? Quanto? O quê?

O que você realmente quer saber?
Quanto você quer ganhar?
Quanto você vai guardar?
O que você quer esconder?
Quanto vai ignorar?
Você quer se encontrar?
Quando vai se perceber?

Rodar, rodar no próprio fuso...
Buscar, buscar o próprio rabo...
O que te move?








7. Quanto de sua mente
sã ainda sobra?



Tudo que se repete demais me exaure
e o cansaço é um ponto-limite.

A impossibilidade é um nó na alma.

O sonho é um vestígio de luz disperso no cotidiano,
uma miragem possível de realidade.

E eu sou só um ponto, um pó na imensidão...

E eu não quero ser mais um.
Não quero ser mais um a levantar a bandeira da lamúria
e acabar no fosso escuro da amargura,
nesta vala que devora o sonho de tantos
e os faz caminhar sem rumo,
tontos, cheios de vazios.
Mas também não quero cair
na apatia bovina que parece atacar a maioria,
que conforme os conformes se conforma
e se abate na fôrma amorfa do molde
que deles se espera.
Quero escapar da aceitação do que não quero.

Às vezes, eu penso na vida,
e tudo o que é vivo precisa se movimentar...
Então viva a vida ou deixe-a passar.
Mas viva e deixe viver
aqueles que querem se movimentar!
Porque este mundo é muito mais duro que o paraíso.
Nele você está por si só.

Então, em vez de se perguntar
o quanto de sua vida ainda resta,
por que não se perguntar
o quanto de sua mente sã ainda sobra...

Nós somos muito excitados,
só não sabemos o porquê.

Melhor você viver agora,
antes que a senhora da foice bata à sua porta...
E se o elevador da vida te puxar para baixo,
aperte o botão de um andar mais alto!!!

E então detonar alegria,
espalhar esta energia
em todos os locais onde o vírus da maldade
dê vazão a toda esta crueldade
que insiste em se alojar nos corações dos homens.
É ali que é preciso desativar
toda esta letargia que parece nos atacar.







8. Sim





Eu não tenho antídoto
contra o veneno lento
que o tempo dispara e inocula
em meu corpo e em meu espírito,
que gira neste carrossel sem parar.

Eu não tenho.

Não tenho pára-raios
contra esta avalanche de informações,
esta enxurrada de acontecimentos,
este espetáculo emocional dentro de meu peito.

E, teimoso, insisto em ser feliz.
Vou ao lugar que tiver que ir,
suportar o que for.

E mesmo se não der,
continuarei exigindo.

Ignorarei impossibilidades.

Subirei qualquer montanha
desde que ela me chame.

E rondarei os lares procurando fórmulas
para o transpassar de um dia a outro,
em busca de um cotidiano grandioso,
que me coloque no ponto mais alto do espírito.

Eu busco nos tratados de alquimia,
ou mesmo dentro do oco do meu peito,
aquela coisa sem nome que me atiça
e me atira pra cima,
numa altura suficiente para tocar o céu.

Que me faça esperto nos momentos tristes.
Que me anime, me mantenha desperto.

E seguir,
como for.
Acreditando na possibilidade.
Nas possibilidades.
Nas.
Sim.



Navegar com meu barquinho
nestes maremotos de acontecimentos,
remando contra as manchetes dos jornais
que, normalmente, não me desejam um bom dia.

Sentir a potência da força da alegria.
Crer no que eu possa ser.
Tornar menos difícil
o que pode ser mais fácil.
E acordar com vontade.

Acreditar que um dia
uniremos forças todos juntos,
por mais que a história me desdiga,
por mais que eu invente este dia.
Por mais que eu minta pra mimmesmo.

E se a manhã nasceu nublada,
aguardar a turbulência,
a truculência
a virulência do porvir.
A todas as possibilidades,
estou sujeito.

E deixar passar.

Que outros astros passarão
e mudarão a paisagem.
O ângulo. O ponto de vista.
O tempo posterior aos eventos
sempre amadurece a história.
Após o naufrágio,
sempre existirá uma tábua solta a nos socorrer,
uma nova margem irá surgir,
que cicatrizará a ferida.

Que os quilos de chumbo
pesam tanto quanto os de algodão,
mas podem ser mais leves se você quiser.

E se os corações amargos irão
impingir pregos nos teus membros,
te fazer sangrar singrando os dias,
se a hipocrisia deles te faz pensar que são inocentes,
que és tu o mal, a chaga, a ferida exposta,
?perdoai-os, eles não sabem o que fazem?,
ou então mandai-os à merda!




Um só compromisso:
Estar vivo e antenado com o que vivo,
agora, neste lugar.

Então acordar novamente,
sem saber das surpresas
que se escondem nas dobras das horas,
nas esquinas do tempo.

Dentro do meu coração existem dúvidas.
São como cupins do espírito.

E se não consigo precisar qual a rota precisa
entre a minha satisfação e o alvo,
é porque precisamente aí reside o motivo
que me instiga e não me enjoa.

Então, é continuar tentando.
Não deixar ficar morno. Jamais banho-maria.
Se é pra morrer na praia, ao menos
morrer nadando.

Porque se erro,
me conserto no final,
quando zero os ponteiros,
quando morro afinal.





9. Sobre o desperdício das
possibilidades














Só quando a morte,
este enigma do nada, vem pra perto de mim,
aprendo a perceber que estou vivo tantas vezes.
E que desperdiço possibilidades infindas,
quando não pesco prazeres preciosos dispersos no
cotidiano, neste dia-a-dia aflito por virar a próxima página.

Se somos cadáveres pré-datados,
se nosso coração virará nada,
como podemos ter tanta pressa?

É entre milhares de nascimentos e óbitos
que a gente trafega sem nada entender.
O fato é que a gente tenta, tenta,
e não consegue aprender!

E eu, que não sei o dia exato de minha morte,
continuo neste vaivém de luzes,
que se acendem e se apagam,
destes dias que se esfarelam.

Sou um peão neste caleidoscópio de emoções.

Articulado, continuo em minha luta.




E continuo sendo eu,
seja sob os holofotes de minha batalha,
no intervalo da escuridão do meu sono
ou da luminância dos meus sonhos.

Eu, que cavei tantos buracos,
busquei tantos esqueletos,
escavei e limpei com artefatos específicos
meus próprios ossos
e não cheguei ao nirvana.

Somos almas correndo de um lado a outro.
Como se o tempo fosse curto demais.
Como se não houvesse tempo.
Como se não houvesse. E não há.

Somos almas tentando o tempo todo,
buscando acertar um alvo móvel.
Um alvo que não há.

Errar continuamente, é isso que nos mantém vivos.
Os erros, essa falha contínua, nos torna obsessivos.

E lá estamos nós de novo,
num novo dia,
nos locomovendo nestes labirintos,
tateando no escuro,
procurando receitas de paz para nossas almas...

E lidar com fórmulas adulteradas!
Eis o desafio...
E então no decorrer da caminhada,
nestas curvas cheias de surpresas,
conquistam-se espaços,
pessoas, coisas, tempo,
maturidade.
Em cada frasco aberto,
vê-se um pouco desta preciosidade.

Pequenos momentos essenciais
nos fazem continuar nesta busca
repleta de objetivos,
mas tantas vezes sem sentido.

E são nestas faíscas que escapam destes frascos,
neste momento de verdadeira troca,
de amor real,
quando não se espera nada em troca,
sem muito romantismo, sem firula,
quando só se quer usufruir desse se dar,
que se instaura o sentido de uma vida,
que é pequena na verdade,
mas enorme na vontade.

É como um cometa
vindo em direção à Terra,
o estrondo do impacto da vida sobre mim,
sobre todos.
Cada qual com seu filtro.
Com a sua lente.

Um código, uma linguagem.
Uma rede de significados se enredando,
nos fazendo absorver o que nem sempre escolhemos.

E nós dentro do barquinho,
às vezes comandante,
às vezes marinheiro,
às vezes passageiro,
às vezes clandestino.
Às vezes náufrago.





E podem-se construir batalhas,
apagar incêndios.
Destruir castelos,
construir incêndios,
reerguer palácios,
constituir impérios.

Pode-se tudo, de várias maneiras,
assim com não se pode.

Sei que posso responder por mim.
E se eu sei dos pontos que me constituem,
então contribuo com o meu pouco para o nada maior.

E posso então seguir o curso da viagem
sem destino assegurado.
Me divertir com o imprevisível,
trepidando entre os acasos e as escolhas,
nestes mares da vida.
E uma vez
com todas as possibilidades nas mãos,
ir.



segunda parte
2000 menos tudo



1. Introdução



Cena:
E veio em minha direção um túnel escuro, desses que se duvida ter fim. Minha vida contada em um parágrafo. Imagens de todas as minhas idades num só lance. Da sensação de nascer ao último adeus, a vida lembrada em míseros segundos.
Eu, que só acreditava em Deus na hora do pânico, me vi ali esperando pelo fatídico encontro. E ele não veio.
Não me restava nem mais um fiapo de vida. A última conexão fora rompida. E por uma eternidade que não posso precisar se foram minutos ou séculos, fiquei neste estado de suspensão, sofrendo de uma solidão lancinante.
E veio um flash. E mais outro. E no terceiro espocar, as cortinas se abriram. Revelou-se então a imagem luminosa e ofuscante do mundo em que havia vivido. Um mundo onde eu era agora um invisível observador da realidade da qual não mais participava. E nesta realidade estava ali estatelado o meu corpo. Lá embaixo.
Flutuando, livre de gravidade, via meu corpo vestindo um esqueleto que até então eu desconhecia. E completamente boquiaberto por esta situação inusitada, vi com uma clareza que me doeu os olhos, o mundo dos homens tal qual ele era.
E, como que pra ninguém, meu espírito disse:
? E eis a caveira que me fez.


2. Dormindo num incêndio



E eis a caveira que me fez.
A marca fatal ainda fresca.
Tu podes tirar esta roupa.
Sei que não tem mais serventia alguma.
Poder-se-iam reerguer todos os esqueletos das tumbas.
Um mundo de mortos.
Não mais teríamos que matar uns aos outros,
uma vez que já estaríamos todos mortos.
Seria mais honesto assim.
Não haveria mais funerais, nem retaliações.
Poderíamos conviver em paz.
A comunicação ficaria mais fluente quando as línguas
não mais se movessem, ou quando as gargantas não
emitissem som algum.
Seria um roçar de ossos, um bater de mandíbulas.
Continuaríamos nas nossas diferenças e assim
prosseguiríamos em nossa marcha.

Uma marcha ininterrupta em direção ao futuro.
Uma marcha vazia de uma geração sem palavras.

Marchemos então
sob o discurso febril de maldizer tudo.
Fácil a lamúria,
o lamento vem natural como o ar que respiramos.

A escuridão preguiçosa invade sorrateiramente os
compartimentos dos que não querem mais pensar em
encontrar alguma solução.

Não movamos mais palha alguma.
Deixemos então o fogo lamber nossas casas, nossas
crias, nossas vidas, e deitemos tranqüilos em nossas
camas no meio do incêndio.


3. A dramaturgia da hipocrisia

Tudo como num teatro.

Ao fundo do palco, os atores já nada dizem além de
textos amarelados e envelhecidos, que nada dizem.
Os pergaminhos do roteiro se esfarelam.
As palavras iletradas não expressam coisa alguma.
Uma vez com o texto que nada diz,
os atores maquiados sorriem envergonhados.
A atriz principal não mais acredita no que diz, o diretor
dá as costas e desiste do espetáculo.
Tentando minimizar o desastre, o iluminador desliga seu aparato.
Todo o elenco da farsa desmorona frente ao
público constrangido...
E assim, diante desta tragicomédia recém-inaugurada, a platéia condicionada à luz azul das TVs não mais aplaude.

Somos jangadas sem destino em mares revoltos.
Pobres palhaços navegando em mundos desfigurados
em busca de terra firme.

O mundo errou.
Não tem mais cemitérios nem pomares.
Não tem nem lição de moral nem nada mais.

Se somos marionetes ou cobaias, já não importa.
Palhaços ou mártires das circunstâncias,
isso. já não interessa

Talvez devêssemos incinerar todas as agendas.
Todos os compromissos de amanhã já cancelados.
Repensar tudo de novo.
Relançar o mundo numa outra plataforma.

A história, fora de órbita,
não mais acompanha a evolução.
São déjà-vu já demais vistos.
O mundo, repleto de ontens,
não parece oferecer mais lugar
para futuros reincidentes.

Eu quero deixar aqui registrado o meu manifesto contra esta situação decepcionante, insustentável, decadente,
caótica e desconcertante em que nos encontramos.

Quero expressar o meu repúdio
contra a estupidez humana
que cria instituições que aprisionam nossas mentes,
detonando um tipo de vida burra, a qual não aceito.



Eu abomino qualquer espécie de cerceamento à
expressão da minha alma,
que sofre e adoece vendo este festival de atrocidades
sendo cometido a cada minuto,
nesta cidade, neste país...

A alma humana
se encontra no meio da escada de incêndio,
sem saber se sobe em direção às labaredas
ou se desce em direção ao labirinto dos desejos
obscuros...

Eu rejeito esta fábrica de objetos de fracassos e
sucessos nos jornais,
estes padrões de comportamento e de linguagem
que nos empurram goela abaixo,
estas informações contaminadas e direcionadas por
interesses alheios aos nossos,
que nos fazem pensar de modo equivocado e preconceituoso
sobre pessoas ou fatos cujos precedentes
não temos a menor idéia.


Eu digo não a essa engrenagem
que mitifica ou destrói pessoas com uma facilidade
só concedida aos Deuses!

Eu rejeito, digo não, abomino, repudio.
Eu não consigo conceber esta multidão de
gansos egoístas em que nos tornamos
e essa vida de gado que nos impõem.

E luto contra o que nos faz pensar
que não podemos fazer nada
contra o que nos faz desistir antes mesmo
de tentar encontrar alguma solução.


O inferno é frio.
O céu, apenas uma metáfora.
O purgatório, o lugar dos comedidos...



4. A política da ganância
desnutrida


Governantes e governados se perdem
na repetição compulsiva de atuações inócuas.
Doemos então nossos créditos, nossas crenças,
doemos então nossas vidas para a vaidade mórbida da
maioria de nossos dirigentes,
essa corja que infesta e infecciona nosso pálido futuro.
Sigamos o percurso tortuoso da marcha silenciosa em
direção ao resultado das forças agora em embate.
O enigma. O jogo. O desafio.
O quebra-cabeça das forças antagônicas em questão:
O amor versus o ódio.
Uma batalha tribal e épica.
Corações contaminados pelo vírus da maldade,
espalhando crueldade entre os que resistem,
entre os que insistem em encontrar um antídoto.

? Governantes gananciosos, grandes ou pequenos:
Tu podes tirar esta coroa da cabeça, não há mais
reinado algum. Teus rubis se derretem em sangue.
Somos tuas vítimas e teus autores,
e pagamos o preço justo por isso.

Dinheiro, luxúria, poder.
Tríade que deturpa a mente, embriagando-nos.
Corrompidos,
os corações já não mais discernem
entre a dignidade e o escárnio.

Vedados, os olhares estreitos se admiram em espelhos
que funcionam como cenouras diante de jumentos.
Somos apenas meros passageiros do processo
do surto da ganância sem limites?

Nos cabelos da primeira-dama, enquanto jovem,
trançavam-se sonhos de revolução, agora gastos.
Hoje, o veneno pode estar em qualquer taça,
a semente da intriga em qualquer cabeça.

? O que queres levar daqui?
Não te bastará nunca mais dinheiro?
Por que teu buraco nunca cicatriza?
Não percebes que é na tua inconseqüência corrupta e
leviana que carregas vidas e esperanças para o abismo?
Leva a tua crueldade e o teu egoísmo contigo,
imperador do mal, junto com a cobiça cega e
inconseqüente para longe daqui.
E então implode as pontes dos sonhos
de convivência pacífica entre as almas
que circulam neste espaço-tempo!

E, enquanto isso se sucede, usufruas do teu palacete repleto de perversidade e fartura.

Não existe paz, só intervalos entre guerras.
Deixemos de ser românticos.
A realidade é o que se vê:
Sangue derramado, escorrendo nas escadarias
dos séculos. Por que isso mudaria agora?
Invasões, intrigas, traições atravessam rolando por
todas as eras, contaminando todas as regiões.
Os dias míopes. Os dias torpes. Os dias.
Terras, títulos, poder, nada!
Conforto, fama, riqueza, nada!
Tudo escambo corrompido
quando a consciência não confessa, pesa.

Sob o lago, narcisos afogados afiam suas espadas para
a nova guerra e furam a imagem refletida no espelho.
Então, como que cocainômanos, tornam-se os tutores
do poder, os imperadores da aldeia, reinaugurando mais uma tirania, por mais que disfarçada.
E o povo masoquista os abençoa, pois se não se
manifesta, consente.

? Narciso, acorda e vê se paras de mostrar que és
bem-dotado, pois todo o teu poder é puro pó. E por
mais que penses que tua imagem estampada na mídia é margem segura para pensares que enfim chegaste ao reconhecimento público e realização pessoal, és um embuste. E então usas de mil tipos de plumagens e te empoas todo, achando que convences até mesmo
aqueles que te bajulam.



5. Sobre a conspiração contra
nós mesmos



Somos todos anjos.
Somos todos demônios nos reunindo em torno do
caldeirão de vaidades e vontades em prol da
conspiração contra nós mesmos.
Somos o esqueleto do cachorro rodando
obsessivamente em círculos, buscando morder a mosca
no próprio rabo.
A mosca que não está lá.
Só a coceira.

A violência cotidiana
é só mais uma violência diluída entre irrelevâncias.
A morte ou o crime estúpido não nos choca mais.
Como não possui impacto, não produz movimento.
Como não ecoa, não interfere na paisagem.
Acuados, assistimos aos capítulos se sucederem.
Somos reféns dos marginais que, invertendo a situação,
nos colocam à margem.
Somos reféns de nós mesmos.

Somos estranhos demais uns aos outros.
Não nos consideramos nem um pouco responsáveis
pelo desenrolar dos acontecimentos.
Levantamos a bandeira da omissão,
reinaugurando a cada minuto mais um desrespeito.


Os acontecimentos encadeados,
em vez de nos coligarem,
nos deixam mais e mais sozinhos.
Fortalecem os alicerces do muro da falta de perspectivas, colaborando com os círculos que alimentam
e engordam o monstro da barbárie.

A banalidade do crime, com sua lança impetuosa,
dilacera impiedosamente o silêncio na noite escura
e embrulha o peixe da manhã seguinte.
No final da colina ouvem-se gritos represados,
que se chocam com as montanhas,
ecoando milhões de pensamentos pertinentes
não expressos.

Crimes sem justiça imperam na cidade nublada.
As almas culpadas rodopiam na passarela da
impunidade, e outras acuadas se colocam aprisionadas
em carros com vidros blindados,
em condomínios minados.

A crueldade, sempre soberana,
encontra sua era de propagação,
como elipses de pedras jogadas no lago.
Sua notificação cada vez mais amplificada.

Debaixo da água,
o monstro espia nossos espíritos boquiabertos.

Somos a fotografia do raio X.
A imagem crua dos nossos esqueletos revela
o nosso desequilíbrio ao andar.

A verdade nua: não conseguimos nos governar.
E o conformismo sistematizado é o termômetro do
nosso desequilíbrio emocional ao se deparar com esta paisagem hostil.

Somos almas à deriva num mundo com fragmentos de todos os tipos voando em todas as direções.
A armadura do cavaleiro medieval se mostra perfurada pelas rajadas das metralhadoras de última geração.

As crianças, outrora ingênuas criaturas,
sacam suas armas no meio do pátio da escola.
E atiram com firmeza.
Nada é como um dia não foi.

O fato é que as conseqüências do acaso
(ou do descaso)
podem ativar velhos labirintos.
Fazer surgir novos minotauros.



E como que para convencer a mim mesmo,
digo que mesmo se o mundo se extinguisse,
se tudo enfim se consumisse,
se este grande deserto sem fim se apresentasse,
ainda assim gostaria de estar vivo,
pelo simples prazer de estar vivo,
e ser testemunha ocular desta transição de eras,
desta paisagem que insistimos em nos possibilitar.

História por todos os cantos.
Pesando em nossos ombros como pianos de cauda.
Desde o início se repetindo ad infinitum.

Não tem raiz quadrada, nem fórmulas novas,
nem a vontade de reinventá-las.
Como tapa na cara deslavada, damos de ombros.
Até que o próximo cataclisma nos resgate.

O mundo é nada mais que uma construção,
um equívoco ou um enigma,
que resiste nos mostrando
que na calamidade ou no deleite
tem de haver alguma sabedoria a se escavar.

Estar vivo e em movimento
é um desafio.



6. As colinas da dignidade



No mundo inteiro a mesma coisa.
O mesmo mover de paredes como numa casa de
espelhos. São imagens de imagens refletidas.
É tudo tão perto, tudo tão distante.
Somos pequenos cacos no liquidificador da história, trepidando por entre os dias,
num mundo cada vez menor.

Não há paraíso permanente em lugar algum.
São subidas e descidas no elevador da vida,
gangorras que oscilam a qualquer momento.
Só quem trepida na corda bamba e vislumbra o abismo
sabe de cor as possibilidades das cores neste mundo.

Os domingos são iguais em qualquer parte.
Possuem um silêncio típico. Uma espécie de luto alegre cujos movimentos lentos deflagram o vazio universal.

Dentro do aquário, os peixes humanos nadam no nada.

E o vazio não é o mal,
somente o inexorável.
Deve ser ali que reside o enigma.

No meio do navio existem náufragos,
os náufragos nadam em terra, se afogam com ar.
Existem homens da resistência,
que tentam colorir o breu,
que insistem em apontar
que atrás da falta de sentido deste mundo
existe uma outra ordem de coisas
que pode um dia se erguer
e apontar saídas triunfantes e poderosas,
mas que hoje ainda são incompreensíveis.

Silenciosos,
fertilizam as colinas da dignidade,
da honra e da coragem,
num momento em que as sementes
da fome sem tamanho
e sem fim são, ininterruptamente,
plantadas nas hortas do planeta.

Existem sorrisos que insistem em alguns lugares,
alguns amarelos, restaurados ou desdentados.
Mas que sorriem,
espalhando ondulações de pura força.



7. A anti-revolução



O dia-a-dia é a anti-revolução.
As emoções dispersas não têm tempo para amadurecer.
O nosso fragmentado cotidiano
nos individualiza mais e mais.
Cada qual com seu umbigo,
cada umbigo com seu problema,
cada problema clamando solução.
A percepção global vai se evaporando
em gotículas esparsas, sem concentração.
Sem expressão.
Sem poder de intervenção.

A gravidade de alguns fatos são enfim amenizadas, diluídas
em mídia poluída e ininterrupta,
de procedência suspeita.
A multidão indiferente é devorada por seus televisores
que alardeam o mercado de consumo.
Os cupins da esperança ficam mais fortes,
quanto mais bélicos ficamos.

Cato os pedaços dos homens que um dia sonharam,
vejo a ruína do que sobrou.
Tento reconstruir os castelos condenados
que agora implodem.
São almas andando em círculos, dando cabeçadas.
No meio da gritaria urbana, existe um silêncio,
é ali que se condensa todo o barulho.
Os esqueletos vivos ainda em seu prumo vão aos supermercados e vibram com as cores ácidas dos
produtos recém-lançados.
Caminho nas trincheiras da batalha de consumo empurrando meu carrinho.
Dentro dele uma metralhadora giratória.
Como eu, outros esqueletos deslizam
pelo chão encerado,
atraídos pela volúpia da ingestão.

Somos pequenos pontos
que migram de um pólo a outro,
e neste tráfego vez ou outra esbarramos
na pequenez do cotidiano aflito
por virar a página de outro dia,
donde se vislumbram possibilidades mais tranqüilas.
A solidão é uma boca quente.
É o silêncio de uma boca quente.

Agora, as certezas rolam as escadarias do palácio.
Só acredito em absurdos.
Confio nas informações dos telejornais como quem
afaga o fio da faca do açougueiro.
Como quem crê em gnomos.

Vejo quase todos os jornais, as TVs, os filmes,
os livros, os discos, todos se unindo a nós
na nossa imbecilidade!
Vejo todas as letras, as imagens,
todos os engodos nos assolapando
com a fúria da ignorância!

Vejo toda corrupção sendo enfim revelada,
ao fim da nervura exposta da estrutura manca da
máquina de contaminação do vírus da maldade,
que se reproduz sem fim.

Continuamos na seriedade dos palhaços,
que se expõem ao ridículo
e sabem disso.

Nada temos.
Nem armas, nem trincheiras,
só um pulmão que respira e um olhar de espanto.

No meio da guerra,
a manipulação de nossas mentes vem
por subterfúgios subliminares
e atingem o foco pretendido.
Os poderosos conglomerados de comunicação
constroem nossos castelos, decoram nossas paredes
e, como mais uma peça do jogo, querem que você se
encaixe entre o sofá e a mesa.

Como ator,
me retiro de cena
e me recuso ao papel de abajur!

E nessa luta fria cozinhamos o ensopado de nossos
corações a cada dia.

Gélido, nosso amor ao outro não mais pulsa.
Somos enxames de uma abelha só.
Arquipélagos sem possibilidade de conexão.
De nada nos servem veias azuis.
De nada nos servem mais veias.
Nossos corações são só corações a serem devorados.

Uma vez perdida a dimensão da coragem de encarar o
fato de que não há mais respeito a nada e a ninguém,
a vidraça se despedaça.
Escuto os ecos do tilintar.
Já conheço de cor os estilhaços...
E sei que, junto com os cacos,
nossa humanidade escorre pelo ralo.

Diante da voracidade alheia, somos nada.
Com sangue nas mãos rasgam-se as saídas.
Engole-se a chave.
Apaga-se a luz.
Com o sangue a escorrer
corremos às ruas nas tardes cinza e tardias,
atrasados demais.



8. O castelo das almas
em conflito



São tantas almas em conflito buscando soluções nas
encruzilhadas das perguntas nem sempre formuladas.
Tantos cativos de suas fraquezas, seus vícios,
buscando compensação para suas faltas.
Rondando os cantos de suas prisões,
decoram suas paredes.
Cada um com sua repetição,
seu arranhão no disco na vitrola de sua história.

Repito também a minha tragédia,
insisto no arranhão do meu disco,
na cicatriz do sulco de vinil.
Insisto no erro.
Percebendo o equívoco, decido a não-reincidência,
e caio de novo no mesmo arranhão do sulco.
Refaço o percurso da perdição.
Rolo de novo a escadaria.
Recomeço novamente.
De posse de uma clareza absurda,
busco meu esqueleto em tratados de arqueologia,
destilados e compilados por anos de terapia.
Resgato na memória as causas do erro,
os motivos insensatos.
Avalio. Analiso. E erro continuamente.


E dou de cara com a parede do meu ser.
Desta constituição única do que sou.
De todos os conflitos armados no meu eu.
De todas as saídas fechadas do não sei.
De todas as perguntas que não respondi.
Com todos os argumentos que não tenho.
De todos os caminhos que tentei,
só achei a rota míope,
a nota escrita: não há receita.
E continuo a viver no rumo incerto,
que é tudo o que tenho com certeza.
E começar de novo, da tábula vazia, do zero.
Tantas vezes eu,
o palhaço com a torta na cara
sem o texto decorado.

Sou e continuo sendo eu, desde o nascimento.
E pela manhã, após o sono, retomo o mesmo corpo.
Minha cara no espelho, minhas rugas novas.
Meus cabelos brancos, minhas olheiras, meu cansaço.
Meus hiatos de tempo.
Minha desorientação.
Aos escovar os dentes,
não tenho como não ser eu mesmo.
Minha caveira ali, claríssima.
Meus dentes, a parte mais exposta de meu esqueleto,
me falam do futuro vindouro: o limite de todo o ser vivo:
a morte.
Sou um ser que existe e
sabe que não tem todo o futuro pela frente.
Sou uma criatura em busca de um megafone.
Preciso expressar esta sensação de estarrecimento
e espanto!
De letra em letra, pescando no vazio,
a fúria de meus dedos teclam estas letras
em busca de respostas!
Canso de existir neste mundo canino,
onde, alegre ou triste, persisto.

Como, um dia, o meu,
6 bilhões de corações humanos
ininterruptamente bombeando sangue
em 6 bilhões de corpos cheios de veias.
12 bilhões de olhos ansiosos, curiosos, desconfiados,
buscando alegria nos cantos esparsos deste mundo.
Não sabem o cronograma
nem o destino do percurso,
nem como mexer os dados de Deus.
Olham-se uns aos outros, intrigados.

Uma multidão de escravos do bem e do mal
desenhando seus caminhos, construindo seus castelos,
palácios, prisões ou masmorras.
O tempo amadurecendo seus corpos,
revelando então o inexorável abismo da finitude, este
enigma de calamidade, este corredor sem volta onde o
clímax se desvanece no ar.
Dentro do meu esqueleto existia um órgão que pulsava.
Junto dele, muito sangue.
Em cada gota de sangue, um punhado de vida.
Em cada coisa que pulsa, este mistério.
Nas pequenas ou nas grandes demais,
há vida que não se percebe.

A cada dia, 150.000 novos mortos no planeta Terra.
De todas as causas. De todas as maneiras.
Em todos os lugares. Quantos nascimentos?

Seres prestes a nascer e criaturas moribundas,
lado a lado, no aguardo de uma solução.
E nós, vivos, a apreciar com espanto este mundo inacreditável.

Bem-vindo ao reinado das perguntas óbvias,
ao paraíso das respostas inexistentes.

Enquanto isso, danço com a minha própria caveira.
A cada mordida que dou, meu crânio trepida.
Danço como uma mosca de frigorífico
que voa ao redor da lâmpada violeta que a atrai,
chama, frita.
Uma lâmpada chamada tempo útil, tempo-limite.
Como uma pilha, uma bateria não-recarregável.





9. O engenheiro dos escombros



Apesar de tudo, meu coração é cheio de amor.
Existem travas ferozes.
Como trincos. Como cadeados. Comportas.
Como fera selvagem que rosna e ameaça.
A porta se abre.
Com todos os conflitos que suporta.
Meu coração segue. Tenta. Vai.
Esbarra nos fantasmas e se assusta.
E volta.
E vai de novo. Tentando.
Encontrando soluções possíveis
que deságuam no desconhecido.

Com o tempo marcando no corpo as feridas da vida,
da própria loucura vivida, tentada, assumida.
Como cobaia de si mesmo, vivendo.
Tateando o futuro velado, secreto.
Idade da decisão, se vai pilotar ou não este caminhão.
Se vai bancar ou tirar de campo
o sonho da arquibancada do teu pelotão.

Eu, o engenheiro dos escombros, continuo nos castelos,
não há outro lugar para onde ir.

Preciso me reorientar no espaço-tempo,
que é tudo o que tenho nesta vida.
Meus sóis. Minhas luas, meu mapa sem estrelas.
Agora, perambulo pelo castelo.
Reaquecido e reanimado por forças que se sabe lá
donde vieram, meu esqueleto sobe as escadarias,
tentando acalmar minha mente incendiária, violando e
subvertendo suas próprias leis de pequenas mentiras,
como adiantar o relógio,
como fingir que não vê o que vê.

Acumulo e registro eventos
que se somam e se sobrepõem em mim.
Debaixo da minha pele, meus órgãos.
Debaixo deles, meu esqueleto me assusta.

Mastigo as palavras como quem engole moscas.
Sou um ponto que gira numa rosca sem fim,
um parafuso que gira em busca do próprio umbigo.
Sou um ingênuo em busca de alegria.
Sou uma alma, um lençol cheio de nós.
Mastigo as paredes do limite demarcado por um corpo
no espaço.

Agora, limpo as gavetas de meu abdome,
deste depósito de poeira.
Sou um armário atravessando a ponte dos tempos.

Respirar é como marcar o tempo, mascar ondas de
vento. Seguir no intento. E saber do tudo falta.
Cônscio do tempo que crio e que escapa como
vazamento de gás em cano desconhecido.

O tempo lambe a falha geológica de minha alma,
as latitudes e longitudes das fossas abissais
de meu espírito.
Transforma em líquido minhas memórias.
Minhas lembranças viram alvos a serem fisgados.
Minha história vai em direção ao liquidificador.
Bobagens misturadas a aprendizagem, serragem com
erros, acertos com ventos.

Sou a vítima, o álibi, a testemunha e o assassino de meu
próprio tempo num tribunal sem lei.
E continuo a girar nos dias,
nas páginas dos meses que se desnudam,
não estando mais limitado àquele corpo que latejava,
que queria voar, que admirava
e tinha demarcações bem claras
como cercas de arame farpado e seda puríssima.

Ou nem tão claras assim...





FIM



Meu agradecimento a Nix, meus pais, Rá & Rê,
aos 2 egg?s, Drica,
assim como a Arnaldo Bloch, Bianca Ramoneda, Bia de Paula, Golda, Zal, Katia Mecler, Eduardo Wotsik, Aricia Mess, Fernando Acosta, Evelyn Schwartz, Anna Távora, Marina Colassanti e a todos os outros que de alguma forma contribuíram para tornar realidade este projeto.


A favor do compartilhamento de arquivos que gerem conhecimento entre as pessoas, este texto tem a proposta de copyleft, em que os direitos autorais são autorizados para reprodução e distribuição É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais. Ao veicular este texto, gostaria que fosse mencionado meu nome como autor. Como gentileza, fica a sugestão de imprimir e doar a alguma biblioteca próxima.

A favor das ondas livres, para a proliferação das riquezas do conhecimento e, através da internet, poder compartilhar com os que têm interesse.