A maquina que foi meu coração ou o Hamster em que me transformei

A Máquina Que Foi Meu Coraç?o

Ou

O Hamster Em Que Me Transformei - Uma peça em Looping

 

                                       RICARDO CHREEM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em video projetado, vemos linguagem dos surdos, gesticulados, com legenda abaixo.

          

  ATRIZ SURDA MUDA:

400 anos se passaram, séculos e séculos de tratados e pesquisas sem fim sobre a minha história, kilometros de papel escrito. Muitas curiosidades e bizarrices. Hamlet, horacio, ofélia... Personagens perenes num círculo eterno, a história sempre a ser reescrita em eterno looping. Seus personagens aprisionados em uma  trama sem aç?o.

 

 

BO

 

 (ESCOMBROS ou Necrotério ou frigorifico. Um morto. Uma mesa. Velas. Uma etiqueta no pe de hamster,que está morto. Ele levanta e senta.)

 

        

HAMSTER ESTA NO FUNDO DA CENA, MORTO, SENDO VESTIDO EM SEUS DETALHES POR UM CAMAREIRO, DESACORDADO. O CAMAREIRO O COLOCA SENTADO E O MAQUEA.:

 

Black out. Som de filme de açao. Suspense.

Ouve-se badaladas de sino. Passos de um lado a outro. hamster levanta da maca e caminha como um zumbi. Como um sonâmbulo ele  resmunga coisas ininteligíveis. Ele gesticula estranhamente, como em uma dança nobu, com os olhos fechados. Ele deixa escapar palavras no meio a murmûrios, até que se assusta com a própria voz e abre os olhos. Em seguida senta-se e o médico entra e ele lhe tira a pressão e o asculta. Ouvimos o batimento cardíaco normal.

 

BO

             VOZ EM OFF:

Alimentado,traido, maltratado, como uma cobaia de experimentaç?es alheias. Sou cumplice dos meus pensamentos , enquanto a manh? acordou nublada.

 

     Ele tecla no computador. Guarda tudo meticulosamente em uma caixa, e vai em direç?o a uma cadeira, onde um médico o aguarda.

    

             MÉDICO

Nao parece haver nada errado com voce. Clinicamente voce está perfeito! Ainda sente náuseas? Deve ser psicosomático. Tome isso.

 

     (O medico levanta e sai , hamster volta ao seu computador, tira tudo da caixa e digita.)

 

 

             HAMSTER

 

'Eu me lembro. Eu ainda era eu. Ou achava que eu ainda era eu. As vezes me esquecia e perdia o fio da meada. 

Eu... Eu Olhava para o vazio, quase estrábico, e quando dava por mim, sentia outras presenças, como se sente quando se é observado por detrás ou mesmo morto . Eu estava ocupado demais comigo mesmo e com meus pensamentos. Algo em mim ardia no meio do peito, mas acho que era só refluxo. Os médicos não sabiam o que eu tinha, mas eu achava que eu estava morrendo... Depois das visitas Médicas eu explodia em uma agitação mental , que apesar da ebulição, me fazia permanecer imóvel, silencioso e terrivelmente só...

Era assim, na verdade era um alívio o que eu sentia quando eles iam embora, era como se meu sofrimento houvesse encontrado alguma solução provisória, ou imaginária, pouco importa. E deste estado suspenso, surgia algum tipo de dispersão. Apesar disto, eu estava ali, apreensivo por algum diagnóstico? mas eu daria tudo para delegar qualquer decisão médica a um terceiro, não tinha mais forças pra decidir nada. 

Eu vivia este dia a dia num silêncio lento como de um dia branco quando o movimento do corpo fica em descompasso com o da mente, essa estranheza onde o corpo e a cabeça vivem em mundos paralelos. 

Sobre os meus ombros, o peso dos jornais descortinavam o desastroso espetáculo que eram as ruínas do país em que vivia...

Eu preciso revelar... Tudo isso me irritava... eu estava no meu limite, enquanto a manh? ficava cinza.

 

     (Os personagens se apresentam. Entra o militar, cheio de condecoraçoes.)

 

             NOVO Rei -  Cláudio 

Eu estava na frente da batalha. Eu servi a todos os tiranos e os defendi, na verdade eu os invejava. A realeza, Colombo, Cabral, e todos os que vieram em seguida. Todos eles vinham em sua rota cega, suas naus fedidas, sujos e doentes encontravam um mar nada fácil, mas depois da tormenta uma terra de pernas abertas. Durante um tempo eu os defendia. e eles foram mudando de papéis. E eu os defendia no decorrer de séculos . Defendia os SÁDICOS, os perversos, os pequenos tiranos que cresciam  nos porões de tortura , os arrogantes, os ditadores disfarçados de democratas, os populistas demagogo disfarçados de generosos, os ladr?es de alma, os sociopatas inimagináveis, os Censoresos golpistas, os juizes do mal, corruptos e linchadores, eu os defendia. E me identificava com eles. até o momento em que minha paciência chegou ao limite, cavei as oportunidades, violei as regras criadas e com isso reverti o jogo. Agora, eu preferia ser o invejado. Eu faria tudo de novo . E o fiz. E o faço. 

 

             Tribunal. Marteladas. 


             HORÁCIO

Eu só estava fazendo o meu trabalho, eu n?o tinha opç?o. eu era mais um dos explorados. Eu pagava meus tributos e via tudo indo pelo ralo da gargantas corruptas dos que me davam ordens, e era isso ou a porta da rua . Eu e minha família tínhamos fome todos os dias e nenhuma reserva. Apesar de confuso, eu ficava a dispor da realeza e seus vampiros, e por outro lado, junto aos outros fudidos como eu. Eu ouvia a todos em seus murmúrios, lamentos, lamúrias, restos de pensamentos compulsivos e desejos em voz alta. Com isso meus ouvidos se entulharam. Não me dava conta de como eu estava equivocado. Como um anjo Diabólico, eu ignorava os perseguidos, os abduzidos emocionalmente e suas almas sequestradas, os coagidos, os ignorantes, os miseráveis.

Como os cínicos suíços na 2a Guerra mundial, eu me achava neutro mas estava dos lados das trevas, até que tudo ficou bem escuro. E eu senti medo E temi a deus.

 

     (entra Ofélia, envolta em trapos, ensopada de ågua.)

             OFELIA

 

Eu sou ofelia, represento essa multidão de machos e fêmeas omissos... Nem eu mesma me represento. Sou um peão a ser movido. Eu nao tenho mais vontade própria, prefiro ser conduzida a ter de escolher. Por favor me mova.

(Dirige-se a plateia)

 

             OFELIA

Senhor, para onde gostaria que eu me movesse? a ao fundo ? saio do palco?  boca de cena? volto ao camarim? posso sentar nos seu colo? Por favor...

E agora?

  

     (Ofelia vai para boca de cena e chora baixinho.)

             OFELIA

È tudo esse deboche, que até mesmo a mim mesma eu escracho. Eu sou esta pessoa sexy, esse naco de carne, este esculacho. Por favor,Alguem me ajude, alguem me possua! Alguém! Alguem! Faz muito tempo...

 

             OFELIA

Parece que há um velório ali. eu não acharia nada estranho que o velório fosse de mim mesma. Eu já não mais me importo. Como um fantoche de mim mesma invento desculpas, finjo que não estou aqui. eu já nao estou nem aí. Eu simplesmente, entro, viro as costas e faço cara de paisagem..

 

     (Todos os atores posam para fotos e se auto fotografam repetidamente, as fotos vao para o tel?o. hamster se auto filma como se fizesse uma reportagem, que aparece no tel?o.)

             HAMSTER

Vejam, a rainha, o novo rei e a sua corja do poder das trevas, olha como ela está bonita. Mãezinha? Olhe para mim... Todos presentes posam com seus sorrisos amarelos para os fotógrafos oficiais em frente ao caixão. Atraves deste luto falso, os parasitas conseguem celebrar a morte e a desuni?o. nós fingimos que acreditamos que eles nos protegem, e eles desempenham este papel, quando sabem que só pensam neles mesmos. Plantam a desesperança para manipular toda uma naç?o. Eles insistem na intimidaç?o e assim todos permanecemos calados. Shhhhh.

    

     (O flash espoca, a imagem dos sorrisos em close)

             HAMSTER

(Debochando) ? Olha como choram bonitos... (Desfazendo o sorriso) Já vi macacos chorarem mais decentemente...