O INSOLÚVEL EFERVECENTE

Não tenho mais o tempo continuo, é tudo fragmentado.
Nem presente, nem passado, nem futuro. É uma massa de tempos compostos...
O futuro e o passado não se encontram mais no espaço acessível.
Tudo se mistura. Minha referência deve estar em outro lugar que não mais o tempo.
O tempo muda o espaço em que me encontro, esse lugar cheio de planos e paredes, esse lugar cheio de tempos diferentes. Aqui tudo se torna elástico... O sentido de minha vida aqui neste plano nao parece fazer sentido. Por que vim, por que estou aqui e por que irei embora? Sempre todos tentando desesperadamente deixar marcas... Questao inadiável para todos os vivos do planeta.

Quando me dou conta, passaram-se 10 anos... vejo nos meus contemporaneos esse tempo que passou...

Há um desprendimento entre as dimensões. Como se tudo fosse projetado como em um cinema mudo. Essa estranheza é o que se vive no primeiro momento ao me dar conta da questao do tempo que me escapa.... Sao camadas superpostas, como se só pudessemos entender a vida em seus complexos desdobramentos... É como imagino o morrer, imagens da vida sequenciadas em sua importância, um cinema mudo.
As vezes, me sinto cansado de me ver nesse quadrante, as pequenas coisas, essa rotina, essa falta de rumo da vida sendo vivida dia a dia, como se não a percebesse. Como se o vazio nada significasse... Em outros momentos me vejo tentando ser profundamente verdadeiiro a mim mesmo, criando um espaço onde tenha autonomia. Onde eu possa ser eu mesmo no presente, íntegro. Os quadrantes são móveis. Depende da perspectiva e momento. Tempo, espaço, consciência, ausência, pensamento, sensação... A mobilidade parece estar vinculada ao espaço e tempo. Nascimento, vida, morte. Transporte. Registros na historia. Invenção. Pura arte. Armação. Enrolaç?o.
Ser sozinho nao é opcional...
Estou aqui e tudo me é intenso.... Somos , nascemos, crescemos, amadurecemos e morreremos sós. Um arco de mudança , uma história sendo contada em cada célula.
Em minha vida ocorreram coisas e perdas que não fazem sentido. Essa é a minha travessia, são como pontes sobre abismos, Lá embaixo, o precipício . Eu sigo em frente, procurando equilibrio. Ao olhar com microscópio, vejo essa tentativa repleta de minúsculos desequilíbrios lado a lado, como alguém que anda na corda bamba.
Minha mente tenta o caminho racional e lógico na tentativa de compreender, e assim se preserver. Há outros meios de procurar respostas. O fato é que nunca nada concluo. E vejo que me esforço. Esse esforço é o que revela a farsa do que a minha mente arquiteta e projeta.
Fico sempre nessa sensação de que o futuro prepara algo para o qual ainda não estou preparado, para o qual nunca estarei pronto.
Fico preso no passado que me acalma, nesse lugar-espaço em que me sinto mais seguro e confortável.
Nem sempre me reconheço naquilo que acabei sendo, não sei exato o resultado do que me transformei . O meu passado me transforma no que sou. Agora já me pergunto: o que me constitui? O passado.?
Sei o que vivi, por mais que em algumas vezes me aflija ao perceber que no lugar em que me encontro, tudo ainda está a se formar.
Fico então entre o infinito do passado e o infinito do futuro. Essa é a minha travessia, são como pontes sobre abismos...

Posso ficar aflito ou calmo, tudo depende. Fico entre esses dois pólos. Na verdade a vida é assim : é um agora, após o outro, sempre esses momentos se sucedendo. a aflicao é o lugar onde o desespero toma conta. E a calma? Um lugar de conforto...um lugar onde eu me oriento. A vida por vezes apresenta becos sem saidas. Nao depende de você.
Diante do insolúvel, abro mão, me entrego, peço concordata. Não há outra coisa a fazer. Entrego os pontos. Se nao posso compreender com a mente deveria tentar entender com outros sentidos... que outros sentidos? Nao o sei com certeza...
So sei que tenho que Abrir mão do controle e assim não mais abro espaço para o caos do dia a dia, suas questões e desesperanças. Tenho que conseguir parar de antecipar os momentos. Isso me coloca inteiro no presente. Definitivamente deixo rolar. Mas nao demais. Nao deixo a procastrinacao me dominar. No mundo atual, muitas coisas buscam me dispersar. Muita coisa me distrai. Muita coisa tira meu foco. E em algum lugar isso me atrai. Ter focos em Assuntos demais é desfocar. Ao desfocar perco a atenç?o.
No entanto, tento entregar-me. tenho consciência das escolhas e acasos que viví, desse caledoscopio aleatório e caótico que é a existência. Não abaixo a cabeça. Nao entrego os pontos, nao jogo a toalha.
Ao ver que a tudo estou sujeito, não há outro caminho a trilhar senão me entregar; e isso nada tem a ver com se resignar, entenda de uma vez.
Me solto na corrente, deixar-me levarp . Tento nao me segurar no banco de areia.
Ao fazer isso, desmascaro o desespero que ainda resiste em mim. E assim, ao se revelar ele se desfigura. Não lhe concedo mais espaço. É como iluminar uma sombra. É tudo ilusão o meu poder de controle. Se consigo me encontrar somente nesse momento em que respiro, se tenho sucesso nisso resgato a alegria de me ver intenso nesse presente instante. Posso esperar, posso ficar no vazio.
Ainda me vejo me vendo perplexo, mas sei que tudo passa. Não há nada a concluir ainda. Desesperar-se é o contrario de esperar.
A realidade é dura como rocha. Ha que coisas que se tem que aceitar, mas nem todas.. Como um palhaço que tem que engolir o fracasso do riso n?o arrancado, da situaç?o patética a ser aceita, do ridículo da existência. A vida não permite que eu seja mimado, pois eu sei que confundo minha felicidade com o desejo de que tudo fosse como gostaria que fosse. E essa atitude tóxica, onde meu ego se emaranha a minha consciência na tentativa de adquirir controle sobre todas as áreas da vida, asfixia minha alma. Esse pequeno ditador que é meu ego , por vaidade ou excesso de racionalismos, tenta se impor me iludindo que sou eu, quando sou muito mais q esse ego e essa mente.
Preciso compreender onde me encontro, não através do lugar onde gostaria de estar, ou acho que merecia estar, mas aqui, nesse momento, agora.
Este é o lugar da minha verdade com o mundo, onde estou em conexão. Tudo está exatamente como deveria estar. Tudo está exatamente como poderia estar.

Agora, Quando eu contar ate 3, posso me esquecer de tudo. Quando eu falar já, tudo se apaga. 1,2,e já! Agora! Já! 3,2,1... black out. Será assim a morte?

Eu posso me alienar também. Mas o fato é que a alienação está ainda mais além do que o desespero. É quando a pessoa se dá conta que embarcou na viagem errada, defendida de si mesma numa historia roubada. Prefere focar na parada equivocada do que tentar entender que o que mais lhe aflige é tentar entender a realidade que vive. O problema é o que fazer com o medo e o que o medo faz conosco.
Como quando estamos em fuga, quando construímos uma redoma, inventamos uma atmosfera muito personalizada, e as vezes asfixiante.
Quantas pris?es n?o construímos pra nós mesmos? A diferença entre o veneno e o remédio é a proporção das escolhas.
Os opostos dão-se as mãos.
Morte e vida atreladas geram sentido uma a outra. É necessário viver os dois momentos aos mesmo tempo, e isso as vezes gera um curto circuito. A luz dá sentido a escuridão, o frio ao calor. Não há outro lugar onde ir. Os opostos são indispensáveis uns aos outros, é a mola propulsora de toda história.

O mundo me dá , o mundo me tira. Saber discernir os momentos é entender as gramaturas que a realidade proporciona. Há uma realidade que prop?e várias camadas sobrepostas. Funcionam como um programa de edição, um software. Filtros sobre filtros sobre o que vivemos, camadas de significados se interpondo, e ainda além, sobre o que vemos e como vemos. S?o lentes selecionadas por cada um posicionadas como um véu sobre a realidade que vemos. Cortes, foco, zoom.
O universo nos toma e nos dá o tempo todo. Saber perder é aprender a ganhar. Saber ganhar de verdade inclui a sabedoria de saber perder. Expectativa e desapego, dualidade ao extremo. Máxima que a vida impõe. A vida vai passando, as frustrações sendo vividas uma após a outra. Apego e desilus?o. É quando vejo o medo da dor da decepção abrindo mão dos sonhos, a antecipação da frustração fechando portas. A retração do investimento no mundo se projetando em sonhos diluídos, restringindo-nos as margens de ação... A vida vai passando, e maiores são as chances de que nossos sonhos fiquem aguados, nossos projetos melados, nosso interesse murchado. Agora, você se antecipa em brochar por medo da dor da próxima decepção, pela ansiedade que isso poderá te proporcionar. Agora, eu me recuso a alimentar as expectativas desse lugar q sempre se frustra. Agora, eu mudo e subverto a ordem das coisas e prossigo na montanha russa. E peço pra acelerar, pois quero sentir o vento na cara, desfrutrar desse momento. Dizer ao mundo que nem isso nem nada pode me parar.
É preciso ter desapego para encarar que estou sujeito a todas as possibilidades. Eu preciso me entregar.

O problema é essa tendência em pensar que que o pensamento tem o poder de controle sobre o futuro, que por meio dele conseguimos deter o destino das coisas...
O problema está no equívoco de achar que a minha mente sou eu. Em algum lugar de nós, há por um lado essa tendência em se deixar iludir que o pensamento é essência. Por outro lado há a certeza de que fracassaremos sempre nessa tarefa de controlar o fluxo das coisas e dos eventos. E ainda numa terceira instância, uma tentativa de controle no nível que nossa mente cria sobre nós mesmos. Há em nós algum tipo de inteligência que não nos permite deixar-nos enganar num nivel mais íntimo... Esse refluxo cria angústia, esse lugar onde invento o que n?o há. Essa antecipaç?o desse conhecimento gera essa sensaç?o. Essa impotência tem a ver com essa construç?o de um escudo protetor que o medo ergue ao perceber que nao tem defesa. E assim triunfa o medo. É preciso impor uma pausa, inventar um lugar em suspenso onde não tenho como, nem porque controlar o destino das coisas. É quase como inventar um lugar que não existe. É como forçar a existência do que você deseja como saída. Entregar-se é o rumo natural. A lei do da contracao e expansao é que nos cria ansiedade , nem tudo funciona conforme previsto: FLuxo e Contrafluxo. Contraç?o e expans?o em eterna alternância, fruto de todo sistema neurovegetativo da natureza, tao impositivo como em nossos organismos...
Caminho pelo vale das respostas perdidas, órfão de qualquer garantia de que o mal não venha em minha direção, mas apesar disso tento alcançar uma postura que transcenda tudo isso e uma atitude que não me gere esperanças vazias. Pelo contrário, tento conspirar com o universo em meu favor. No entanto, sei que projeto fantasmas na parede. Na parede da memória, tudo se amplifica. Meu corpo tem memória celular, muscular... E ainda assim minha mente raramente esquece. NInguem me garantirá uma resposta... mas em algum lugar alguma sabedoria de entrega vbxvcvbvb vvvvv me indica que já sei que o que tiver q ser , será...

Dificil eh ter a paciência de ver as coisas como s?o. Esperar sem se derrotar,entender que as coisas est?o exatamente como deveria estar. Fugir do cinismo é entender que as coisas se apresentam no estado específico desse momento por contingências sempre únicas. Entender o significado e desfrutar o valor no instante em que acontecem é um exercicio de sabedoria e desprendimento dos tempos compostos.

O nosso medo da dor cria a falsa ilusão de que ao controlarmos o universo dos eventos, dos fenômenos que estão em nós e ao nosso redor, poderemos refratar os raios malignos. Tenho que admitir que não compreendo certos acontecimentos e preciso lidar com isso.
Ninguém me garantirá uma resposta. Eu preferia poder ter um pára raio.
Ainda assim, eu preciso entregar os pontos do controle, entender que essa entrega ao presente é fundamental, ao invés do colapso. O desafio é essa difícil tarefa de se encontrar vivo, ficar bem disposto e atento ao momento do agora,. Uma concordata antes da falência.
Cínicos s?o aqueles que fingem viver o que n?o vivem. Desajustados sao os que nao praticam o que pregam e vivem em descompasso com o desejo, nao sabendo dosar a proporç?o entre desejo e necessidade. Íntegros aqueles que n?o se dissociam, que conseguem esperar, que inventam pausas, que aguardam a precipitaç?o baixar. Aqueles que realizam o esforço mínimo necessário para não serem levados ao desespero, conseguem aguardar. Resgatar o significado , a cada momento de vida, de como cada coisa está exatamente onde deveria estar, entender isso é exercício indispensável para livrar-nos do cinismo. No tabuleiro da vida entram muitas variáveis mas ainda assim impressiona o qu?o apropriadas são as coisas no momento em que se realizam.

O mundo não parece ser para iniciantes. Aos iniciados abrem-se o desafio da solidao da dor, dos portais das perdas. Da perda da própria vida e daqueles que voce ama. S?o camadas que voce penetra e que entram em você quando entramos em contato com a fragilidade das coisas... Você as perspassa e por elas é atravessado
Há alguns portais que te imp?e como condiç?o de atravessá-lo, estar num lugar de descontrole e entrega, um lugar de escolha. Um lugar sem garantias.
Em alguns momentos da vida esses portais se abrem, cabe à você a decis?o de atravessá-lo ou nao... S?o muitas opções oferecidas na vida. S?o as escolhas que a vida apresenta a você, momentos limites que podem gerar reviravoltas, mudancas de rumo ou a total passividade.... Assim a ausência de escolhas pode definir desfechos... Na trajetória da vida s?o milhoes de curvas inusitadas. Esquinas nao previstas, a vida vai se desenrolando para cada um de maneira única e imprevisível... Interaç?es da vida sendo vivida intensamente como num caledoscópio, acasos e escolhas lado a lado.

Há algo que preciso compreender e esse algo me escapa; sei que vou morrer, e toda a minha geração e a anterior e a próxima, e eu nao entendo o porquê... Essa morte é viva. Ela está aqui e isso sempre me assusta. A faca do açougueiro, o alimento que nos tornaremos... A crueldade da natureza vista no mundo animal. Vou para onde? Vim para o quê?
Sou tudo Isso e isso me perturba.
Tento fugir dessa idéia, mas no fundo sei que a morte é um fato.
E isso, sempre, se transforma em um problema, para quem fica, claro.
Aquele que morre, morre. Ponto? Se a morte é realmente morrida , vai saber. Se existe aquele corredor escuro lento cheio de luz... O que será que acontece?...
Pois a morte não representa um problema para os mortos. Os mortos não maldizem a morte. Os mortos estão mortos, o que quer que isso signifique.
Aqueles que estão por aqui, sofrem, não com a morte em si, mas com a sua inevitável proximidade, cada vez maior. Isso assusta em nossa postura de desleicho em relaç?o ao momento atual. Nossa dificuldade de se ver no momento presente gera tantos escapismos... Quando nos vemos cara a cara com a finitude, damos valor a vida e ao momento presente.
A consciência da morte é que é o problema.
O problema é o fato de sermos transitórios e termos de lidar com isso, com esse lugar frágil, instável e perecível... Nesse lugar não há garantia alguma. É onde tudo está se formando e nada ainda está consolidado.
É esse vir a ser que nunca parece ser, quando no fundo sempre é...
Nada nos dá garantia alguma do que acontecerá.
Nesse lugar não há futuro nem passado. O futuro do indicativo é, no fundo, imperativo.
Ficamos no meio desses 2 abismos fictíveis...
No desafio de fazer a travessia exata, que nao perdoa desaforo, muitas vezes perdemos o continente ou naufragamos...
Nós, que com o nosso medo e dificuldade de lidar com o fim em si que parecemos criar a fantasia coletiva da vida eterna em outro lugar, como se fosse um delírio necessario.
Nós inventamos que a morte não existe, e ponto! Não há nada nem ninguém que nos garanta isso!
Com a tecnologia, espichou-se a vida, adiou-se a morte morrida, colocando-a na gaveta do esquecimento esse processo natural, nesse compartimento onde ela não mais parece fazer parte no curso da vida. É sempre com espanto que lidamos com o fato inevitável e previsível. Em contrapartida veio a violência das máquinas que queimam combustível ou pólvora, com seus longos braços repletos de lâminas afiadas e projéteis modernamente fatais, ceifando, o que julgamos precocemente, a vida de alguns. Veio tambem tecnologias impensáveis salvar vidas e alongar o que parecia desenganado, assim como máquinas alongando inutilmente estados moribundos.
Medo ou serenidade, espanto ou arrependimento, a morte suscita. Abrem-se janelas, param-se relógios, tapam-se espelhos. Rituais.
Deus nos condenou a morrer, e quase sempre vemos a morte como resposta a nossa culpa, como justiça a nosso modo de encarar a vida. Como a Adão e Eva, que foram punidos por um Deus que os proibía provar do conhecimento, e ao entrarem em contato com isso, violando seu mandamento, passaram a morrer e a sentirem culpa e vergonha.
Me falta palavras para expressar meu sentimento em relação a morte, tento me encaixar em estereótipos, em formas convencionais, mas tudo falha. Preciso de novos rituais. Morrer, em nossa sociedade, é um lugar vazio, um campo minado pelo medo, um mapa sem trilha, um lugar sem espaço.
A vida de fato é uma seqüência de pequenas mortes, muito se fala disso. Aquilo que comanda é o que se sobrep?e a ordem. Apesar de que a ordem natural das coisas é o caos. O caminho é essa eternas sucess?o de transiç?es de um estado a outro. Perdas e ganhos se alternando no poder do que é e está presente. Quando se é expulso do ventre da mãe e nos colocam no olho da rua da vida e isso se torna para sempre ireversível. Quando a infância morre em detrimento da avalanche adolescente que abre todas as portas e comportas das possibilidades da vida.. Quando a juventude acaba, as vivencias se acumulam e por mais que tenhamos saudades do corpo jovem, nosso corpo avisa a chegada da maturidade. Estamos sempre de cara com as transiç?es que nos aproximam e revelam a nossa mortalidade. Tudo com seu ciclo de inicio, meio e fim. E um lugar que liquidifica todos os tempos num só tempo, de uma só vez o tempos se unificam e mostram que o tempo é único e presente em sua pluralidade , múltiplo e soberano em sua unidade.
Em todos os dias da vida, a morte está lado a lado. Eu a sinto e isso nada tem de mórbido. A morbidez está na visão de quem vê a morte como algo lúgubre e por isso a teme. O filtro de um lugar mais sincero com a vida e seus opostos está na aceitaç?o, na superaç?o do medo parece estar a possibilidade de viver a morte e morrer a vida. E isso parece ser entregar-se. E essa parece ser a chave, a fórmula da arte de se salvar, num lugar muito parecido com o dos softwares que os homens criaram...
Nesse lugar onde a memória abre caminhos...e os guarda em segurança.




Rubaiat de Omar Caian. Traduç?o/ediç?o livre por Ricardo Chreem

Nunca murmurei uma prece, nem escondi os meus pecados. I
Ignoro realmente se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero e tento ser íntegro.
Além da Terra, pelo Infinito, procurei, em vão, o Céu e o Inferno. Depois uma voz me disse: Céu e Inferno estão em tig)n`n! " $!$!@mm$ !n`f`!!!!m!,!m`n`!mnm!`
Ouvi uma voz gritar: - despertai meus pequeninos e enchei a taça, antes que o licor da vida seque no cálice.
Um dia a alma deixará o meu corpo e ficarei por trás do véu. Enquanto não chega a hora, procuro ser feliz. Para onde irei depois?
Não há abrigo seguro. Aceito a dor que não tem remédio e sorrio ao infortúnio; não espero que me sorriem: Seria tempo perdido. Sorrio ao destino que me fere; tento não ferir ninguém.
Busco a felicidade agora, não sei de amanhã. Apanho um grande copo cheio de vinho, sento-me ao luar, e penso: Talvez amanhã a lua me procure em vão.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia. É inútil a tua aflição; nada podes sobre o teu destino. Se és prudente, toma o que tens à mão. Amanhã... que sabes do amanhã?
Não vamos falar agora, dá-me vinho.
Nesta noite a tua boca é a mais linda rosa, e me basta. Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios; O meu remorso será leve como os teus cabelos. Como o rio, ou como o vento, vão passando os dias.
Há dois dias que me são indiferentes: O que foi ontem, o que virá amanhã.
Não me lembro do dia em que nasci; não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber desta taça e esquecer a nossa incurável ignorância.
O vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras.
Os povos, os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.
Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos o que se oculta por trás das aparências. As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.
A vida é um jogo monótono que dá dois prêmios: A Dor e a Morte.
O mundo gira, distraído dos cálculos dos sábios. Lembra-te: vais morrer, não sonharás mais, e os vermes da terra cuidarão do teu cadáver. Sobre a terra, sob a terra: homens deitados. Nada em toda a parte. Deserto. Homens chegam, outros partem Bebe, e desfruta o instante fugidio que é a tua vida.
Há tanto tempo giram os astros no espaço; há tanto tempo se revezam os dias e as noites. Vai com prudência, viajante. A estrada é perigosa, a adaga do destino é acerada. A vida passa.
O que resta das cidades por que passei?
Bebe o vinho, e contempla a lua: lembra-te das civilizações que ela já viu morrer.
Ouve o que a Sabedoria diz todos os dias: A vida é breve.
Não te esqueças, não és como certas plantas que rebrotam depois de cortadas.
Mestres e sábios morreram sem se entenderem sobre o Ser e o Não Ser. Nós, ignorantes, vamos apanhar as uvas; que os grandes homens se regalem com as passas. O meu nascimento não aumentou o Universo, nem a minha morte lhe afanará o esplendor.Ninguém me dirá por quê vim ao mundo, ou porquê um dia irei embora.
Iremos nos perder na estrada do amor, e o destino nos pisará, indiferente. Taça encantada, dá-me de beber em teus lábios, antes que eu me torne pó.
Só de nome conhecemos a felicidade. O nosso melhor amigo é o vinho;
Sei apenas que o vinho apaga as angústias que nos atormentam, e nos devolve a calma. Não temo a morte. Prefiro esse ato inelutável ao outro que me foi imposto no dia em que nasci. O que é a vida, afinal?
Não te inquietes, a vida é como um suspiro.O Universo é uma miragem, a vida é um sonho. Não te importes com o passado, não sondes o futuro,não percas este instante: Eis a paz.

*Baseado nos textos : "A arte de se salvar" de Nilton Bonder, "Rubayat" deOmar Cayan , "Morte" de Phiipe Áries e textos de Ricardo Chreem que se adicionam e os modifica unificando todos os outros escritos.


cena 1 : Escuro total ( a platéia vivenciando a mesma sensação sensorial que os personagens)

Voz#1 em off: : respiração ofegante, depois como um susto: "hhhannnn !"
Voz#2: "o que isso? Não... eu não estou acreditando... (sutil riso nervoso)
Não! ( ficando nervoso) O que isso quer dizer?