PREZADA PÁGINA EM BRANCO

CAPÍTULO#1: Prezado papel em branco:

Aqui estou eu novamente depondo. Me encontro neste lugar, onde tudo parece em suspenso. Tenho todas as palavras e nenhuma ao mesmo tempo. Estou neste lugar onde quem não possui nenhum caminho possui todos.

Vou de silêncio em silêncio, onde o contraste com os ruídos revela o valor e o significado da mensagem. Meu castelo é feito de cartas de papel, mas meu reinado é feito de sangue, calor e suor. Escrevo como se fosse para mim
mesmo: Ali estou eu, uma mistura de pensamento, sentimento e sensação num mundo repleto de abismos, nesse lugar onde não há garantias nem mimos. Aqui. Agora.

Não há tribunal nem júri, réu nem culpado. Mas eu testemunho com o meu sangue aquilo que vivencio! Eu estou aqui e agora, apesar de ser feito de água...

Não há mais espaço para teimosos, nem mimados... Não há tempo. O espaço está com as horas contadas... O tempo, com o espaço definido.
Minha vida tem as batidas preestabelecidas. Nem uma a mais. Por isso
prossigo aqui e com toda a urgência.

Subo as escadarias da vida, e às vezes tropeço. A vida cria as suas feridas ao mesmo tempo em que me afaga. Passo mertiolate, esparadrapo, algodão. Além de tudo, saliva. Muita saliva.

Utilizo o tempo como posso. Deixo aqui o meu testemunho. Se tudo parece ficção, então não há mais espaço para ilusões. São nestas folhas que escrevo as palavras e os verbos que conjugo. Tudo busca tradução; toda tradução, um intérprete. Toda expressão busca público.

No fundo, sei que escrevo notas como que para ninguém. A posteridade é só um livro na estante. Ainda assim eu preciso publicar. Por quê? Não sei...

Me olho no espelho e vejo que passo pelo tempo numa trajetória cuja dimensão só eu mesmo pra saber. E é nessa solidão, neste meu silêncio cheio de palavras e registros próprios, que passo de um dia a outro.

Sou um animal que escreve e pensa. Ou que ao menos pensa que pensa. Sou uma alma em desalinho sempre buscando me recompor. E, apesar disso nem sempre bastar, é tudo que posso dar. É o máximo que consigo ser.

Deixo aqui o meu testemunho. Vou de letra em letra, buscando as combinações, as frases corretas que decifrem meus enigmas, e assim reinvento o meu silêncio. Removo a página amassada e recomeço novamente. Ao escrever deixo um relato, mais um no meio de tantos.

Como escritor, eu percebo: foram milhares de almas deixando seus registros da maneira que puderam. Seres que viveram como eu deixaram suas ideias e partiram. Entrego ao acaso esta mensagem dentro de uma garrafa boiando

em direção ao futuro. Essa garrafa pode ser simbolizada de diversas maneiras e o já foram de tantas formas , desde em manuscritos, gravadores de rolo a um pen drive.

Posso colocar o tradutor universal de todas as línguas e ainda assim ficar sozinho na minha comunicação.

Só espero que as letras unidas jamais sejam vencidas. Só espero que elas jamais se voltem contra mim.



CAPÍTULO#2: O silêncio

O silêncio é só uma boca quente. O silêncio é uma boca cheia de possíveis palavras. O silêncio é uma palavra cheia de vazios... O vazio é uma palavra cheia de silêncios... A boca pode estar cheia de palavras vazias. A palavra, em sua comunicabilidade, é um tipo de silêncio... Letras formigam por dentro da língua até eclodirem em sua combinação exata e assim possuírem a chance de virar linguagem. A partir desse ponto, o vírus se multiplica e não tem mais fim. As letras vão se unindo num ponto irreversível onde parecem fazer sentido. Uma vez unidas, você não consegue
mais separá-las sob o risco de destruí-las. Apesar disso, o vazio é o melhor lugar a ficar. Eu vejo a realidade cheia de palavras, as palavras cheias de pretensa realidade, e a realidade, como uma página digitada, repleta de
possibilidades de interpretação...

Meu cérebro não para de enviar mensagens que oscilam entre a violência e o amor. As palavras são responsáveis por isso. As pessoas se metralham com palavras, farpas ou afagos, cruéis, amorosas ou indiferentes... Assim elas vão se reproduzindo, criando um efeito dominó de propagação da comunicação através da emissão de palavras. A verdade é que a comunicação envolve coisas demais. Confesso que tenho dificuldades em concatenar tantas camadas sutis.

Escolho as letras. As combinações precisas. E ali está: Tudo ao alcance dos meus
dedos. Nem tudo a meus pés. Todas as possibilidades estão dispostas. E ao léu...

Misturo tudo. Às vezes, uso a palavra errada. Tento ser um escritor. Cuido para que haja liga, que minha ladainha gere curiosidade, com a dose certa de sensibilidade e alguma classe. Ao mesmo tempo, não me importo se meus escritos são sedutores. Não me interessa o lugar da vaidade. Eu só estou aqui porque preciso. Por que preciso, não sei dizer. Nenhuma receita me dirá onde encontrar as frases. As palavras estão a meu dispor, apesar de estarem dispersas à espera de serem pinçadas. Ainda assim, prossigo. É na persistência que tudo se aprofunda, que as coisas se definem ou se perdem para sempre. A disciplina pode ser vista de vários ângulos. Foco no alvo. Miro na seta. Acerto na mosca... Tento tirar o foco do meu ego. Que as palavras me conduzam ao porto seguro de que necessito. Que as palavras combinadas me digam o que querem através de
mim.

CAPÍTULO#3: A máquina de emissão de palavras

Prezado papel em branco: aqui estou novamente depondo. Meu tribunal é este computador e o decorrer da história. Sou um ghost writer de mim mesmo, escrevo minha própria história como se estivesse fora de mim, como um sensitivo, um paranormal, uma história escrita do outro lado do espelho... Nem eu sei mais por que insisto nessas palavras conjugadas. Deixo que as palavras me

conduzam... As palavras que façam de mim o que desejam. Eu. Eu mesmo, aqui, já não tenho vida própria sem elas, elas me traduzem...

E Eu, Eu.., "EU", palavra mais dita no mundo. Isso segundo pesquisa feita por agências telefônicas. Eus de todos os tipos. Emitindo mensagens de todas as formas.

Somos todos dominados pelas palavras?

Não sei se minha mente não quer, no fundo, me controlar. Ela acha que sou Eu. Quando sei que por trás da minha mente há uma consciência muito mais poderosa. Me entrego então. As palavras, combinadas, se opõem ou se unem a mim.

Eu, migo e mim, nós três ficamos entre o silêncio e as palavras unidas. As conjunções podem ser inflamáveis. As palavras, as letras, as vogais e as consoantes, os parágrafos, pontos e vírgulas mudam, em suas prováveis combinações, os possíveis sentidos disponíveis... Entre Eu e Mim, há espaço de sobra para várias interpretações muito próprias para cada realidade vivida. Nós todos nos embaralhamos demais a cada versão relida...

Prossigo no meu dia a dia, repleto de pensamentos. Os pensamentos são o quê, além de letras combinadas? No fundo, é a minha mente produzindo literatura! Toda mente produz sua própria literatura. Sua composição histórica. Sua música. Sua partitura...

Ali estou eu diante da página em branco, o personagem ainda inexistente e não exatamente necessário. Neste lugar vazio, posso criar um texto solto e nenhuma história. Um relato, mais um no meio de tantos. Posso também revelar o personagem neutro, retirar-lhe o véu do rosto, a tarja dos olhos. Revelar onde ele se encontra, o que quer. Qual o seu conflito. Toda história é uma história de um conflito, de algum impedimento. Aqui estamos, eu e toda a minha dramaturgia.

Minhas rotas mentais rondam em círculos, percorrem paisagens familiares e muitas vezes não chegam a lugar algum. Sem meus pensamentos, talvez eu perdesse a referência de mim mesmo! O que seria de mim sem Eu mesmo?

Me esforço em tentar compreender racionalmente os eventos, é assim que me defendo, é como aprendi a me preservar. E vejo que me esforço. Esse esforço é o que revela a farsa do que a minha mente arquiteta e projeta. O fato é que há outros meios de procurar respostas. E é chegada essa hora para mim.

Eu só queria um pouco da ausência das palavras, um pouquinho de silêncio. Mas ainda não consigo debelar esta mente que não para de pensar. Esse mecanismo que não para de emitir palavras atrás de palavras.

Sei que a maioria dos meus pensamentos me afasta do aqui e agora, me seduz para depois me aprisionar. O que posso fazer se me acostumei a achar que essa mente que produz esses pensamentos sou Eu mesmo?! Sou prisioneiro, admito, dessa mente que arruma o cerco, agenda meu dia, determina o meu futuro, se deleita em reviver o passado e me rouba do presente. Então vou impor uma nova ordem.

Mesmo que eu quisesse e ordenasse à minha própria mente que parasse de respirar. Mesmo que, em hipótese, uma vez sem oxigênio, o cérebro parasse de funcionar por um tempo, e assim as palavras não brotassem do nada como ervas daninhas, meu corpo e seus movimentos involuntários não me obedeceriam.

Meu corpo não consegue se esquecer, minha mente não consegue se anular. Meu coração e meu pulmão não param de bombear um minuto sequer, por mais que eu impusesse uma outra ordem! Não adianta, que essa máquina que é o meu corpo não se submete! Ainda assim, meu ego, este ditador, nunca quer sair do palco. Impõe que é a estrela e rouba a cena. O mesmo truque que impede essa máquina de parar de respirar processa mecanismos para que eu não me esqueça de funcionar em meus complexos processos metabólicos e funcionais. Isso sim é algo que está
além do verbo.

Minha mente pensa que me representa por inteiro, quando é só um pedaço de mim. É pequena diante de tudo isso... Sou que nem sei ao certo. Sou mais que essas palavras, mais que este cérebro. Minha vaidade vai além do que pretendo... A morte tenta tirar todo sentido que possa construir por aqui. O sofrimento ou a dor não nos gera mais significado que o prazer, são irmãos da mesma geração. E, ainda assim, não parecem fornecer consistência. Então prossigo, senhores, sim, e ao prosseguir as fendas do tempo se abrem, esse intervalo abre uma interferência da vontade na realidade. Abro uma pausa e faço com que a minha vontade possa fazer uma escolha e assim interferir no curso da realidade, definir os cursos das coisas. Façam suas apostas, que você possa decidir um curso que te agrada. Ou aquele onde você tem o poder de escolher...

Não consigo controlar essa máquina de emissão de palavras. Eu não sou o que meus pensamentos dizem, mas uma consciência atrás disso. Ainda vou alcançar o estágio onde meu eu não será mais minha mente, e sim o que está por trás disso e seu silêncio.

Não sou nada mais que Uma consciência que percebe o desfolhar dos dias e que faz estardalhaço ao se perceber impotente em fazer o tempo parar... Não sou nada além de uma mente que vivencia o ato contínuo da rotina e percebe que há algo ali por trás. Atrás do véu dessa realidade, existem coisas que minha consciência não alcança. O número de suposições possíveis é precisamente o inalcançável!

Ali onde se ancora um ego, meu eu se afirma equivocadamente como se me representasse através dos meus pensamentos! O fato é que sou mais que meus pensamentos! Eu estou além deles! Há uma consciência que está acima disso. A mesma que faz com que meu coração continue batendo por mais que eu ordene: pare! A mesma que faz com que minha respiração continue por mais que eu diga: basta!

O fato é que tudo se evapora, se oxida, se desgasta, se esvai...

A eternidade não foi feita para os vivos. É nesse vazio tão específico, nesse ar tão inefável, nessa coisa tão inexpressável que tento me recolocar... Ao sair da cama, acordam com meu eu novas perguntas. O meu eu e o seu insistindo em preencher com o pensamento o que deveria ser somente presença. O vazio da mente dando consistência à existência, mas o ato contínuo de um pensamento alfabetizado vai nos conduzindo continuamente a construções no inexistente. No aconchego do vazio tento pousar minha mente inquieta. Ela se desequilibra entre rajadas de pensamentos ininterruptos e rufadas de desejos incongruentes. Ao mesmo tempo, há uma integridade em mim difícil de roubarem.

Capítulo #4: Erguendo andaimes para restaurar a si mesmo

A cada dia que vivo, tento subir as escadarias da vida. Às vezes me elevo, noutras desço. Um passo para a frente, dois para trás. Às vezes tropeço e me distraio, e aí perco o caminho novamente. Noutras, num estalo pulo três casas. Ali, em cada curva que passo, surgem esquinas não previstas. Não há visibilidade a longo prazo. Na verdade, não há visibilidade. São degraus construídos dia a dia, que às vezes desmoronam, para num outro momento te fazerem suar ao misturar o cimento necessário para erguer os degraus que te conduzam aonde almeja. Mas isso não é garantia alguma.

Em alguns momentos, muda-se o paradigma, quando esses degraus podem te conduzir a portais. Te transportam para o agora. Ali, no único lugar onde você pode ser o que é. Tenho que lidar com o inesperado. Encarar este momento agora é tarefa difícil. Insistir tentando eternamente até que tudo cesse é tarefa inadiável...

Perdas. Ganhos. Prazeres, dores, desejos e confusões.

Gasto muito do meu tempo rodando em círculos ao redor de mim mesmo. Não como um ególatra, ou narciso, mas como quem precisa se rever, erguendo andaimes para restaurar a si mesmo...

Desfilo na passarela da História e me encaminho em direção à finitude. Disparo novos "agoras" até então inéditos... agora! Agora de novo! Outro agora! Um após o outro.

Bem-vindos à contagem regressiva que toda vida inicia ao nascer! E, se isso se encontra no universo das escolhas ou dos acasos, já não tenho certeza. Mas tudo sempre chega ao fim. E todo o fim tem um começo.

E esta é a pergunta que me coloco: onde fica cada coisa?

Capítulo# 5: A farsa

Eu me recuso a compactuar com a farsa. Com a farsa que armei contra ou a favor de mim mesmo. E, às vezes, parece que é tudo como num teatro. As luzes, o figurino, o palco, o texto, os personagens, todos se unem contra ou a favor de mim mesmo em minha dramaturgia... Viro o antagonista. O protagonista. Como ator, esqueço minha fala.
Não digo mais nada. Como escritor, gero a confusão. Em alguns momentos a vida te induz a pensar que é como se você permitisse que os atores do seu palco, da peça que você escreve, já nada dissessem. Já nada entendessem. Ficassem ali paradinhos. Que os atores desse palco já nada dissessem além de textos amarelados e envelhecidos que já nada dizem. É quando os pergaminhos dos roteiros se esfarelam.

Uma vez com o texto desgastado, os atores maquiados se paralisam envergonhados por um texto que já se repetiu demais, mas você sempre insiste.

Já faz tempo a plateia, diante do final, já previsto, desistiu do espetáculo.

Como ator que sou, me retiro de cena. O diretor dá as costas e sai do teatro...

Tentando minimizar o desastre, o iluminador desliga todo o seu aparato. A cena se apaga num blecaute e permanece imóvel na memória, como num rastro de luz néon deixado no escuro. Como um feixe de luz de um fósforo riscado na tela preta.

Todo o elenco desmorona frente a um público atônito e abobalhado por esta situação tão inusitada e por isso tão impactante. Tudo parece armado nessa dramaturgia barata, onde eu finjo que vejo o que eles fingem que fazem... Esse lugar onde nos acostumamos. E assim, diante dessa tragicomédia recém-inaugurada, a plateia acostumada à luz azul das TVs não mais aplaude...

Apesar disso, ali estou eu, cheio de braços cruzados, sentado num barril repleto de explosivos, aguardando a próxima detonação... Sempre reclamando... Ali estou eu, armado de lamúrias e impropérios na ponta da língua, vendo o combustível e o fósforo convivendo lado a lado.

Apenas observo, apreensivo. Fico surpreso por premeditar a explosão, e nada fazer. Sei que nada tenho: nem armas nem trincheiras. Nada além de um pulmão que respira, um coração que pulsa e este olhar de espanto...

Ainda há algo em mim que resiste. E tenta não levar a sério o que de muito sério há. São gerações que vêm, deixam suas impressões e partem.

Se sou marionete ou se cobaia, não mais importa... Palhaço ou mártir das circunstâncias, isso já não mais interessa. Sou mais um na roda-viva, no carrossel incessante da vida, enquanto ainda estou vivo.

Não posso, Não consigo e não quero mais ser um espectador invisível num cenário onde não pareço ser notado.
Há algo em mim que resiste. Algo que me faz perder a paciência ao ver que minha contribuição não me é retribuída. Prefiro a lógica dos piratas ou então a dos anarquistas, dos desobedientes civis. Este mundo de cordeirinhos me dá
nos nervos.

Há algo que me faz ver o porquê de estar vivo... Mas faz a resposta evaporar sempre que a vislumbro...

No dia a dia, nem tudo parece ser só alegoria. A falta de reação de alguns, gerando buracos. Sem atitude alguma, esse hiato fica mais cheio, repleto de vazios que toda falta de atitude proporciona. A omissão gera espaço para as pragas oportunistas se propagarem. Deixamos passar. Deixamos rolar. Tudo é permitido. O respeito ao outro só lhe interessa quando diz respeito a si mesmo. No excesso de reação, outro vazio. Onde o impulso impensado e não consentido segue numa direção do que não autorizo previamente, muito menos a posteriore. Acabo virando vítima de mim mesmo num lugar onde minha parte selvagem toma conta. Consinto que palavras sejam postas em minha boca.

CAPÍTULO #6: O cronômetro do meu coração



Quando eu nasci, um cronômetro foi zerado. Eu não escolhi onde nascer, nem quando... As possibilidades absolutamente imprevisíveis estavam prontas para ser jogadas como em um tabuleiro de jogo. Em alguns lugares, onde não se tem o básico, eu não teria a menor chance de ser quem eu virei. África, Europa, Oceania, o interior do Brasil, sei lá. Jogue os dados e veja no que dá. Chegou a minha vez. Eu ouvi um clique, era o início da contagem regressiva.

Comecei a mamar. Início do 1º tempo. Os dias começaram a ser vividos. Memórias começaram a ser inscritas. Lembranças acumuladas e sobrepostas numa tábula rasa, ao longo do tempo? Adolescência. Hormônios. E, dia após dia, a vida sendo vivida. E em seguida, ano após anos, se acumulando... Décadas de informação, lembranças do que ia

me acontecendo, tudo que eu ia aprendendo ia se empilhando até não caber mais espaço para tanta memória... mas antes a infância. Cheiros que nunca mais me deixariam. Luzes, ambientes, não sei explicar, a natureza do céu e sua combinação de cores pontuando alguns episódios que nunca mais sairiam da memória. Cheiros que me levariam sempre a essas instâncias. Estados de espírito vinculados a tudo isso. Lembranças. Memórias, nada mais que memórias se intercalando. É disso que sou feito. Nada além de recordações que se sobrepõem sempre que o presente passa. E como o presente sempre passa só me resta esta montanha de lembranças se adicionando a este momento agora.

Do primeiro dia de vida até o momento em que fiz 40 anos = 365 x 40 = 14.600 dias. Não tenho espaço para acumular tanto conteúdo! Tenho que jogar fora algumas lembranças então. Por isso tenho péssima memória recente. Pago um preço caro, além de muito desentendimento, por esses meus lapsos...

Às vezes fico sem rumo, perco meu norte. Eu preciso me orientar. Preciso dar respostas ao mundo. E o mundo me responder igualmente. No entanto, sou o náufrago apoiado na madeira que boia. O adversário está sempre pronto, invisível ou palpável na minha frente. Às vezes o inimigo se materializa no espelho. Preciso confessar que a vida me consome a cada dia. Nem sempre sou bom para mim mesmo. Eu me perco de mim, de vez em quando. Os dias vão me desafiando, me consumindo, e eu vou comendo e bebendo e dormindo. Sempre me repetindo. Evoluo enquanto desfruto a experiência de ser e estar.

Transformo o obstáculo em plataforma de propulsão, faço disso meu objetivo. Nem sempre em mim a escolha dos acontecimentos nevrálgicos... Mas, em mim, a chance de transformar o ruim em melhor. Assim fertilizo o meu deserto. Esgarço o elástico do músculo que é meu coração e com isso me iludo que estico meu tempo na terra. O fato é que não posso prever meu fim nem saber quantos batimentos cardíacos me restam...

Não sou joguete do destino e arco com as consequências das minhas escolhas. Então, se estou vivo, não vou ficar amarrado à frustração e bater a cabeça na parede, ou deixar o dedo na tomada. Agora já posso nadar sem boia, já posso escolher o rumo em vez de flutuar à deriva.

Não posso queimar vida. Prossigo no caminho do possível. Desvelo o que encobre a luz. Os pontos-limites podem gerar revoluções ou pontos cegos, podem desaguar em pontes levadiças escangalhadas ou em novos nortes. Deus em seu silêncio parece sussurrar em meus ouvidos palavras invisíveis, fica camuflado em cantos ignoráveis, e eu já não sei se invento o que penso ou se, do lugar escuro, crio minha crença. Ao falar com o transparente dou de cara com o vazio, inaugurando novas pausas. Não há trovão nem relâmpago, somente o simples silêncio.

Independentemente da importância do que quero, de onde me encontro, do que desejo, importa o caminho que faço.Alguns dias são mais difíceis que outros, e eu sou o único capaz de subverter as regras que eu próprio criei para mim mesmo.

CAPÍTULO#7: Os quadrantes da arquitetura emocional

O caminho sempre inclui possibilidades mais felizes... E elas estão sempre acontecendo, veja você ou não. E não adianta colocar o fast-forward. O Tempo tem o seu tempo. A vida toda eu fiquei me perguntando e me respondendo. Quem eu sou, o que eu quero, onde quero estar. E eu ia seguindo pistas, decifrando charadas, desfiando esse grande emaranhado de histórias que construí. Hoje o barato não são mais as respostas, a existência
delas, a grande sacação é ver como vou mudando de perguntas e de respostas infindavelmente.

São como fungos, quando mais respondo, surge outra pergunta dupla no lugar.

É como se tudo fosse projetado como num cinema onde sou diretor, ator e espectador ao mesmo tempo... Essa estranheza é o que se vive no primeiro momento, ao se olhar de perto a realidade. Não sei direito. Estou aqui neste quadrante, cada quadrante possui três dimensões do espaço, X, Y & Z, somadas ao tempo encontra-se a quarta dimensão. Vejo as pequenas coisas, essa rotina, essa falta de rumo da vida sendo vivida dia a dia, se deixando conduzir. Mesmo quando projetado, o acaso se encarrega de desarrumar aquilo que parecia programado.

Os quadrantes são móveis. Depende da perspectiva e do momento. Tempo, espaço, consciência, ausência, pensamento, sensação, intensidade, indiferença... A mobilidade da vida parece estar vinculada ao espaço e tempo. Nascimento, vida, morte. Transporte. Eu me locomovo no espaço enquanto o tempo passa. As quatro dimensões aqui novamente. Puro transporte nos quadrantes. Registros na História. Invenção. Intervenção. Arquitetura emocional. Estou aqui, e tudo me é intenso... Em minha vida ocorreram eventos, coisas e perdas que não fazem sentido. Essa é a minha travessia. São como pontes sobre abismos. Lá embaixo, o precipício. Eu sigo em frente, procurando equilíbrio.

A memória da mente é a história da alma. Ali, essa eterna história de encontros e desencontros, esses embates das mentes em contato gravam seus relevos. O músculo é a memória do corpo. Esses nós que se retesam são como braile para quem lê o invisível. O sistema neurovegetativo indica o caminho da contração e expansão, esse lugar que parece ser a chave do universo. É possível traçar um mapa, e dali delinear rotas que revelem tesouros. Esses oásis são o ponto de chegada; e partida.

O olho é a porta da casa. O coração, a cama onde se dorme, onde se acorda. O afeto, a cozinha, onde se burilam os elementos.

CAPÍTULO#8: A reforma da realidade

Depois de anos na estrada, saber o caminho de volta requer memória. Não adianta jogar migalhas ao chão, ao léu. O caminho que leva ao meu centro de equilíbrio depende de foco. A memória seletiva depende de fosfato e discernimento.

Minhas emoções podem se sobrepor a tudo isso. Meus afetos e desafetos podem distorcer tudo o que vejo. Minha mente pode ampliar fantasmas, e minha impaciência, dinamitar o que não contém explosivos destrutivos.

Eu na estrada, sou o cavalo, o condutor, o carro e o passageiro. O cavalo que simboliza minhas emoções não pode conduzir o carro que representa meu corpo. Meu eu sempre quer conduzir, o chicote na mão. Minha alma sentadinha no banco de trás da carruagem pode ser pura vítima das circunstâncias se ficar impávida. Vamos todos juntos. Sigo em frente... Sempre tento mais uma vez. Sou um guerreiro insistente. Preciso acertar o alvo, sendo eu mesmo a mosca.

Eu sou aquele que não mais espera a tragédia para fazer a revolução em sua vida, ao mesmo tempo em que tento unir forças para achar o rumo certo. Meu tempo é aqui. Eu não quero ser mais aquele que espera a hora de morrer para viver. Não sou mais aquele que não precisa ter mais nada para arriscar tudo. Sou um medroso e um covarde ao mesmo tempo. Sou os opostos convivendo em árduo contato. Sou e insisto nessa tentativa de ser. Se a fórmula funciona ou não, é questão da metarrealidade. O que resulta disso faz aparecer ou não a chave da porta. O caminho

se faz ao caminhar. Como mágica: vupt! A chave e a fechadura materializam-se, a maçaneta e o ferrolho, a tranca... o trinco aparece na hora certa.

Continuo a insistir na reforma da realidade. Aponto a falha estrutural, mas não adianta... Proporciono ideias que, ao entrarem em contato com a atmosfera, se aglutinam ao desejo de outros, entram em atrito e em combustão! E assim se solidificam em carvões, realidades envelhecidas que precisam ser contestadas... se liquefazem em acasos, em dificuldades do percurso. Meu poder é maior do que penso...

Minha mente tenta o caminho racional e lógico na tentativa de se compreender e assim se preservar. Há outros meios de procurar respostas. O fato é que nunca nada concluo. Fico sempre nesta sensação de que o futuro arquiteta algo para o qual ainda não estou preparado, para o que nunca estou pronto. Fico preso no passado que me acalma, nesse lugar-espaço em que me sinto mais seguro e confortável. É sempre uma ilusão. Nem sempre me reconheço naquilo que acabei sendo, não sei exatamente a essência da fórmula que resultou no que me
transformei. Mas continuo insistindo...

Escolha o seu caminho. Suas passagens têm seus preços. A vida germina a semente que você escolhe regar, para depois cobrar. Mesmo quando você se esquiva da escolha, a vida escolhe por você exatamente onde você não escolhe, é essa a escolha que se faz ao não se escolher. A vida prossegue, sempre.

CAPÍTULO#9: Dez dias depois ou Dez dias depôs

Prezado papel em branco, cá estou eu novamente depondo. Sim, minhas repetições novamente. Minhas repetições. O
que seria de mim sem elas? Eu não me reconheceria...

Às vezes parece que ando no meio-fio, por cima dos muros, correndo riscos. De quando em quando, salto no abismo que me desafia, mergulho fundo num lugar repleto de redemoinhos onde nado sem sair do lugar. A ladainha continua a mesma: nos jornais, no itinerário, na terapia, no meu diário. Dormir. Sonhar. Comer. Beber. Acordar. Talvez
morrer, ou ainda não.

Me movimento e recomeço novamente, mais uma vez repetir. Assim, produzir memórias. Lembranças, histórias, fatos.

O passado é só o traço luminoso deixado no painel escuro da memória. O risco remanescente, o feixo de luz resistente. Depois vou diminuir de altura, crescer as orelhas. E me vou. Vou desaparecer, sumir. E não mais dormir, sonhar, comer. Um meteoro que rasga o céu e desvanece, como uma vida que brilha e se apaga. Vai ser um
simples esvair-se pra algum lugar, nenhum talvez, quem saberá? Talvez o meu neto se lembre de mim, depois de sua geração, bem raro. Qual o nome do meu bisavô?



CAP ÍTULO#10: O palhaço que habita em mim

Todas as cartas à mostra. Todas as fraturas expostas. Tudo às claras. Todas as pistas descobertas; os caminhos desvendados. Os movimentos estão delineados, as forças em oposição e em sincronia também estão no plano
da sinceridade e da clareza. Não é preciso muito esforço para ver o tudo que sabemos do nosso reino. Já sabemos de cor tudo aquilo que se repete e podemos antecipar eventos previsíveis sem termos nenhum poder paranormal.

Nós, que no íntimo admitimos que nada nem ninguém nos governa, nos resignamos ao ver o deserto emocional dos homens.

Sangue na escadaria da História natural ou humana. A diversidade da violência às vezes se mostra fascinante assim como nossa tolerância ao sermos agredidos. Da miséria explosiva sem consciência à manipulação das mentes doentias.

No extremo da violência, existe um silenciador. Na nossa guerra civil camuflada, o silêncio do medo, as testemunhas oculares agora são, além de cegas, mudas. Muitas almas amarfanhadas na cena armada. Elementos de psicopatia misturada ao desejo de amar e ser feliz são colocados no mesmo plano. A miséria social liquidificada. O desejo mesquinho de tudo para si no lugar do de compartilhar. A inconsequência de alguns tomando proporções inimagináveis para outros. A máquina de falcatruas finalmente desvendada, mas não destruída. Sua existência
coloca em atrito aqueles que ainda se mantêm na resistência ou que se sentem ultrajados...

Reinauguram-se delitos e catástrofes, escutas não autorizadas, difamação sem comprovação, patrulhas, roubos descarados, as declarações falsas. Sementes do medo estrategicamente colocadas para aumentar ainda mais a fonte do que será desvirtuado, e assim manter o esquema intacto. Tudo regado a muito cinismo e hipocrisia. Vejo a violência do metal retorcido por descuido e desrespeito. Vejo a poluição das águas, a sujeira crescente. Os metais pesados em águas outrora límpidas. A ganância pondo os animais, que não têm nada com isso, em extinção,

Me sinto assim dividido quando me subtraio em meus princípios básicos e me distraio em irrelevâncias. Aquilo que me roubam (e isso não é pouco em meus direitos civis e em meu tempo útil de vida) pode alimentar o que me divide e despotencializa qualquer tentáculo de subversão, aguando cada vez mais esse ambiente permissivo... Infelizmente é uma coisa cada vez mais pálida... Não tenho inspiração em meus pares, que parecem muito ocupados como eu... Penso no dia a dia de cada um, suas profundas diferenças e suas profundas semelhanças.

Há por vezes uma infestação de pensamentos infectados. São pensamentos moribundos que inoculam veneno lento na mente desatenta. Aceleram o ritmo do encadeamento natural dos pensamentos, com conteúdo nauseabundo gerando insônia. É como um arranhão no disco da vitrola, a neurose instalada em sua patologia. Repete, repete, repetindo, gerando sentimentos que perturbam a paz.

Tudo igual no reino de Egópolis, onde não há mais reinado algum. Não há juiz, não há mais governo ou leis, mas a
sede de poder continua. Tudo se reinventa a cada dia. Somos nós e mais ninguém. E nesse depoimento há jurados de menos, assassinos, criminosos, culpados demais, vítimas demais, mas nenhum álibi, nem testemunhas.

No fundo, somos todos palhaços, no mau sentido. Ficamos todos atônitos no nosso cotidiano, sem termos o texto ou
o roteiro decorado quando nos vemos cara a cara com a torta esfregada em nosso rosto. Uma notícia inesperada, a interferência dos fatos, a mudança de rumos pode tirar o prumo das coisas. O dia a dia impõe desafios que são
como paredes que você precisa atravessar. Em algum lugar somos atores mudos, calados diante do ultraje,
completamente desbaratinados diante do descalabro da cara de pau de pessoas que interferem em nossas vidas sem nosso consentimento. Não há espaço pra discórdia. E esse estado não é minha nação já faz tempo...

Diante da multidão, nossa graça beira o dramático, e assim mais próximo do cômico. Diante do ridículo, disfarçamos o que temos de mais animal em nós, dessa nossa parte mais risível, e assim prosseguimos...

CAPÍTULO#11: O coração batendo em cena

BLACK OUT

Estou no meio do palco, adrenalina no peito, meu sangue bombando nas veias. Ouço minha pulsação e esse silêncio surdo dos pensamentos que a plateia rumina... Quase consigo ouvir o que pensam alguns espectadores... É como um murmúrio mudo. Uma trepidação que não se vê. Há uma certa reverberação repleta de comentários, agendamento de assuntos aleatórios e críticas, e alguns pensamentos dispersos junto ao público... Eu caminho pelo palco. É muito estranho notar que, de dentro dos meus olhos, observo o público sem que ele perceba que eu o percebo. Esse lugar
mágico e fantástico é muitas vezes fascinante e assustador também... Tento jogar poesia sobre a Aridez dos campos amplos, fazendo fertilizar flores em campos lunares... o teatro tenta semear o que não se reproduz. Posso
esquecer meu texto, causar um desastre constrangedor aqui.

Estou no foco? Posso pôr vocês no foco também?

Acende a luz geral. Vejam vocês mesmos uns aos outros. Ok, black out. Preciso então introduzir alguma dramaturgia... Depois do black out, vem a luz, saída de um canhão apontado agora para mim. Estou em foco. Estou novamente em cena. O coração bate acelerado. Volto a observar por trás dos meus olhos, como se usasse uma máscara transparente. Que prazer um ator tem ao estar em cena? Narcisismo? Necessidade de expressão ou de ser visto? Como um médium, empresto meu corpo ao texto... Ser ator de teatro é saber que tudo acaba e que a memória é a única coisa que resta. Depois do terceiro sinal, desenho aqui uma trajetória de luz, um corpo que uma vez iluminado pode ser visto. Uma luz que se esvai, como a vida.

Não parecem ser necessários cenários ou figurinos, nem muito tempo ou algo tão importante a dizer. O silêncio parece ser mais elucidativo. Vou ficar calado por alguns momentos. Proporcionar à plateia um pouco de silêncio.

Aqui eu novamente diante do público. A adrenalina no peito. O tique-taque do coração bombando intenso. O medo do imprevisível, do incontrolável, do que não tenho domínio. Quero ficar aqui? Acho que gosto de sofrer. Olhos em mim. Olhos. Meu eu no embate de se desvencilhar das defesas ao demonstrar-se. Estou no meio da arena. Meu eu, meu corpo, minhas fragilidades. Monto no cavalo do meu ator, sei que sou humano como todos os outros que me observam. Vou no galope porque, se penso demais, não galopo e caio da sela. Preciso expressar essa sensação de espanto. O curioso é perceber que desejo o palco das expressões, mas não necessariamente a fama. Que essa vaidade é inútil, que todo ego é pequeno, que a maior parte do narcisismo é doente. Mas não sou diferente de ninguém e me parece que padecemos do mesmo mal, e que almejar e cultuar a celebridade é esperar o reconhecimento alheio. Estou aqui porque preciso estar, nada além disso. O ato do fracasso e o do êxito lado a lado, na urgência de toda expressão, você tentando colocar valor no que acontece.
No entanto, nódoas de dúvidas se espalham por aqui, multiplicando dias de neblina pelo calendário furta-cor. Persisto atrás da última pista. Sou um homem que repete. E repete. E repete. Pra de novo repetir. Por isso sou um
ator. A cada sessão, coloco novamente o carrinho no trilho da próxima montanha-russa. Cada exibição é um passeio inédito. Sou um monge budista na oficina de lanternagem. O coração cansado de tanta taquicardia. O corpo tentando digerir o estresse de cada vivência intensa.

Tudo no infinito das imaginações.Todas as sensações em busca de verbo. Toda a realidade em busca de tradução. Toda tradução em busca de plateia, tudo em busca de testemunhas. Caminhar, caminhar. Perseguir o caminho no ato de caminhar. Trilhar o abismo contornando a montanha que é uma vida.



CAPÍTULO #12 : O tubarão surgido do ralo da piscina

Às vezes conjecturo sobre a escuridão, um lugar onde por um lado construo monstros, fantasmas ou ilusões. E no lado oposto enxergo o que há: nada! E ainda numa tangente vejo muitas opções de desfrutar prazeres fugidios... É nesses lugares que entendo a vida. A saída aparece quando não deposito ali nenhum escape, nenhuma fuga, onde não resta mais nenhuma ilusão... Quando olho sem medo o vazio, fico onde estou, aqui, agora. Esse lugar me desintoxica quando vejo então a saída de um mundo lotado de ideias e imagens e informações, e ali permaneço vazio...

O oposto do que ocorria, quando criança, na piscina eu imaginava um tubarão surgido do ralo. E me fazia dar braçadas desesperadas e solitárias, numa viagem só minha. Quem poderia imaginar esta minha excitação diante de um tubarão branco saído do ralo de uma piscina de 20 metros quadrados.

E a minha Alegria em subir a escada são e salvo!!!!! Eu e minha mente realmente somos insuperáveis!!!

Hoje esse tubarão tomou outras formas e ainda me assusta até eu voltar para o presente e ver como a minha mente me ilude.

Minha inquietude me coloca entre aquilo que se soma no decorrer dos dias, se multiplicando no decorrer dos anos, para então me dividir no frigir dos ovos... Eu me multiplico cada vez mais quanto mais me divido em anos...



CAPÍTULO #13: As letras unidas jamais serão vencidas

As letras. Uma a uma, se unem numa combinação específica e assim formam palavras, portanto passam a fazer sentido... São como cofres que se abrem... As palavras unidas produzem Memória. A memória é fruto do passado, um lugar de referência, sem a qual não parece haver chão. No presente, as escolhas apresentam suas armas. O
passado constitui esse armazenamento de conhecimento que faz com que as letras combinadas formem palavras, vírus que se propagam, e assim ideias que se reproduzem. A memória é a contenção da ideia. É o registro.

O ato de escrever é a possibilidade de registrar História.

Um relato, um ponto de vista. Uma interpretação. Mas tudo pode produzir entulho e, portanto, poluir. E tudo que produz muito ruído me perturba.

E eis de novo o espaço vazio, eu ali, cara a cara com a página em branco, o cesto de lixo repleto de papéis amassados. O espaço vazio é o lugar a se habitar. Vou de letra em letra. Ando no inevitável desequilíbrio que todo passo proporciona.

Todo ser está sempre entre um desequilíbrio e outro. É esse o intervalo que junta um momento ao próximo.

Desenho a corda bamba do cotidiano até então invisível, onde dia a dia rascunho uma nova economia emocional. Reinvento o silêncio. Removo a página amassada e recoloco uma nova em seu lugar.

A vida sem contentamento não faz sentido. O contentamento sem conteúdo também não se sustenta. O que faz sentido é o que o absurdo cria. É ali que o paradigma se constrói...



CAPÍTULO#14: Sobre a arte de atravessar paredes

Vejo os eventos vindo em minha direção.

São como paredes de todas as espessuras e qualidades, visíveis ou transparentes, colocadas no caminho. Eu as atravesso e por elas sou atravessado. E não está em mim a decisão do desvio do curso das coisas. Não sei se o destino já está previamente rascunhado.

Ou se eu, em minhas escolhas e com os meus pensamentos, atraio o que se coloca à minha frente. Só sei que o trajeto se desenha ao se trilhar o caminho. Não há outro lugar para onde ir. São escolhas e acasos o tempo todo.

Sou um homem de dimensões: Alma, corpo e pensamento, tempo e espaço. Nada além. E, embora isso não facilite em nada os meus contornos, sou exatamente isso. Tento delinear esse tempo, traduzir essa experiência, achar o verbo que expresse. Nada permanece igual por muito tempo.

O tempo todo tudo se transforma, e as paredes mudam de lugar. Apesar de espatifar a cara de vez em quando, insisto em decodificar esta arte de atravessar paredes. E, ao fazer isso, é notório: não há nada intransponível. A vida me coloca na nervura exposta, no fio da lâmina. Não sei precisar exatamente qual argamassa cola uma parede na outra nesta sucessão de dias. Nesses intervalos que se sucedem, entre essas travessias se desenha uma trajetória. E esse circuito é exato, nem mais nem menos. Exatamente como poderia ser



CAPÍTULO #15: A MARCHA DOS ABAJURES INDIGNADOS.

Sejam bem-vindos à MARCHA DOS ABAJURES INDIGNADOS,
uma marcha onde a peça mais surrealista é você mesmo, esteja na plateia ou em marcha. Se você se sente transparente, onde sua contribuição não parece ser notada...

Se, muitas vezes, você se sente como uma peça decorativa no contexto... se você acha que deve se encaixar entre o sofá e a mesa de centro ou combinar com a cor da cortina e o tapete da sala: seja bem-vindo à marcha dos
abajures indignados.

Uma peça decorativa não se expressa, não reclama, nada exige... um abajur, quando se sente lesado, permanece paradinho ao lado da mesa de centro como se nada.

Se você além de boquiaberto fica paralisado e impassível na hora do telejornal, não duvide: você é mais um que se transformou em um abajur.

Esse país parece ser formado por milhões de abajures. A maioria deles imóveis. Até que ponto essa imobilidade determina os acontecimentos?

Não queremos propor a mágica da transformação. Você continuará sendo um abajur, não se iluda, mas um abajur que ao menos se manifesta, que não se resigna a cumprir um papel, a menos que tenha sido, conscientemente, escolhido por você mesmo.

Nós, abajures unidos, queremos luz. A marcha dos abajures é uma marcha silenciosa, pacífica e sem legenda. Apesar de estar aqui como um abajur falante, não há explicação didática. Cada um entenda como quiser.

A proposta é sair do papel passivo dos abajures apáticos e cair nas ruas como abajures pró-ativos, que expõem a sua cara a tapa, ou melhor, sua cúpula a tapa.

Com várias possibilidades de interpretação, a ideia é jogar luz por sob essas cúpulas, e assim iluminar as cabeças dos que vêm e dos que marcham.

CAPÍTULO#16: TAZ (Temporary Anonymous Zone, baseado no conceito de Hakim Bey)

O mar ainda parece ser o único lugar sem dono, o único lugar não mapeado. Nenhuma nação domina as profundezas abissais, os mares ainda são selvagens, não há políticos por ali, nem copyright. É o território dos piratas, o continente sem terra e, talvez por isso, sem legislação. Essa, a questão. O estabelecido é um lugar completamente ultrapassado por uma política pré-histórica. Estamos num lugar onde a sociedade não se manifesta, e os crocodilos destilam lágrimas... Um lugar de todos e de ninguém. Os homens são juízes natos, julgam sem parar, não param de inventar leis uns para os outros...

Todo o resto já foi tomado, tudo parece ter uma regra, uma lei, um proprietário. Somos prisioneiros dessa estrutura que nos coloca em embalagens não consentidas, em rótulos não autorizados. Num modus operandi que não pede sua autorização. Não há desobedientes civis o bastante para questionar o que se estabeleceu como inquestionável e reverter a regra do jogo. Preciso entender que, ainda assim, não aprendemos a nos governar.

Vivemos numa época em que se torna necessária uma resistência a essas regras inventadas pela civilidade.

É imperativo uma subversão, uma transformação da realidade, uma expressão que venha de um lugar inusitado, uma comunicação do subterrâneo, uma intervenção no caldo urbano.

A cultura precisa ser liberta, em vez de ficar monitorada em reality shows, de ficar encaixotada em imbecilidades, em fórmulas superficiais e desgastadas.

Querendo ou não, está surgindo uma linguagem renovando as velhas formas. As noções de propriedade, de direito autoral parecem ter se transformado em algo que beira o acesso livre e aberto à produção intelectual. A indústria musical entra em contato com o desafio da liberdade da troca de arquivos das músicas, e em breve o novo desafio do compartilhamento democrático e gratuito da produção geral de conhecimento.

Procuro um lugar livre. Onde as trocas possam ser mútuas.

Procuro um lugar onde os corações sejam destravados, as festas entrem em proliferações espontâneas, e o riso e a gargalhada sejam a mola motriz da alegria de um tempo, às vezes, cinza e monocromático.

Um espaço onde a potência de cada um seja liberta, e os corpos e as mentes, em sintonia, estejam presentes no agora. A revolução é conseguir estar aqui e agora! Nao dá mais para permitir que os tempos compostos nos decomponham! Não posso mais deixar que me roubem e que minha contribuição não me seja retribuída. A contradição começa quando quero compartilhar, mas não quero mais ser subtraído. Quero adicionar e assim multiplicar. Me sinto só e em comunhão. Ao abrir meu conteúdo, ao liberar o acesso àquilo que crio, quero entrar
em contato com a rede viva, que, como todo organismo, contrai e expande, e entra em processo de interseção com o ambiente.

É preciso achar esse lugar onde a expressão de cada um encontre as armas, os instrumentos, as forças. Onde o esforço seja compensado por próprio mérito, e as amarras estejam abertas, libertas, e o acesso ao conhecimento esteja livre. Onde a independência seja o ponto de partida e de chegada. É preciso encontrar esse lugar onde se possa correr o risco de arriscar-se no alto-mar dos triunfos e dos fracassos, nas correntezas e na profundidade do contato consigo mesmo, nos ventos que sopram no seu ouvido aquilo que você é. Que você viva a plenitude do que você é, e com isso encontre sua comunicação plena, sua expressão genuína. Isso reverberará nos corações iguais aos nossos. Isso encontrará a verdade e, portanto, será Humano e por isso Risível! E, portanto, Sensível!

Que as velas se inflem! Quem está no leme é você! Suas escolhas te definirão, a alienação ou a liberdade de ser quem você quiser ser te determinará o caminho.

Tudo neste mar é você ? o mar, os ventos, o leme, as velas, o clima ?, mas é você quem decide a direção. Você é o seu destino, o seu próprio inimigo, seu próprio aliado.
E, aqui, tudo pode ser mudado...



CAPÍTULO #17: A engenharia da amargura

Então eu me vi ali, em pleno descampado da vida. Era eu o alvo de todas as flechas, o ímã de todos os magnetismos, o ponto de atração de todos os raios...

As trágicas probabilidades todas se reuniam e riam de mim... Eu não acreditava. Na verdade, eu estava num momento difícil de vida. As fatalidades improváveis se uniam e zombavam das estatísticas... Tudo estava dando errado, eram perdas atrás de perdas. Era eu em eterna busca, tentando desvendar os enigmas que se apresentavam. Não me apresentava como vítima, mas eu não entendia nada. A vida prosseguia, não me perguntava pra onde eu queria ir, ela simplesmente me colocava na pressão, eu era empurrado, abatido. Não entendia os motivos dos desvios, dos acidentes do percurso que minha vida apresentava. Não havia como medir a inexplicabilidade de minha trajetória. Os desgastes se apresentavam a mim, e eu tinha duas alternativas: aceitá-los ou negá-los. Era ali que eu começaria a perceber que a dor e a mágoa, se você deixar, podem construir os
alicerces da engenharia da amargura, da ausência de luz. Assim como o amor e a esperança, apesar de possíveis distorções, podem apontar o único caminho mais genuíno. E era ali, na descrença, que minha fé se fundamentaria.

Fui então caminhando nesses terrenos de dramáticas comédias, nos domínios dos enigmas de calamidades, nas irônicas tragédias. EU não permiti que elas me afundassem. São essas situações onde você não acredita que é o protagonista! São lugares pantanosos que fazem os seus passos parecerem estar em câmera lenta... É ali que você percebe que as águas possuem gramaturas, densidades diferentes, pesos distintos.

Ali notei que a terra pode ser quadrada e que o oceano pode te surpreender, revelar um abismo surgido do nada, e o horizonte, sumir de uma hora pra outra.

Eu resisti e depois de um bom tempo pude assumir um lugar onde pudesse olhar da borda esse abismo. Eu já não mais me atirava ao fundo do poço. Às vezes me apegava à matéria, tentava me contentar com o consumo, desfrutar os prazeres que se colocavam à minha frente... Noutros momentos, escorregava no desconforto que meu corpo proporcionava. E hoje, sempre nesta gangorra, entre esses picos de prazer, satisfação momentânea, mal-estar ou indiferença, é que transito.

E então eu caminhei naquela sensação desértica, onde a solidão se intensifica, e a paisagem vibra como calor das chamas bruxuleantes. E isso acontecia no meio da rua ou em festas efusivas. Eu andava pela terra e via outros como eu, mas não havia contato algum. Era a minha solidão e a solidão dos outros. Éramos consumidos. As chamas lambiam as paisagens com seus vapores transparentes... era como se pudesse ver através de lupas o cenário em alta temperatura... Um véu de vários filtros em movimento. Cortinas de labaredas. O asfalto ondulante em dias de
verão, os fatos derramados no chão. Não há nunca como voltar atrás na tragédia. Não tem fast-foward nem rewind. Não tem pause nessa história. Eu e minha consciência íamos juntos, e o peso de meu cérebro se acentuava enquanto
caminhava nesse momento único, onde as imagens ficavam borradas.

Meu caminhar pesado fazia trepidar minha retina e assim também tudo o que eu via. Eu continuava a andar, pesos de chumbo amarrados à cintura me faziam sentir meus pés no chão. Se não fizesse isso, a ausência de referência me faria rodar mais ainda ou sair voando, e isso já era insuportável. Para parar quieto e desligar meus 220 volts, teria que martelar um prego a meu pé, para me manter junto à terra. Era como andar em círculos. Então, por mais cansado e só que estivesse, era melhor não parar, não. Eu seguia, mas não via mais ninguém.

O momento do presente é sempre essa dificuldade, o futuro e o passado são como centrífugas que te sugam... Por isso, fiquei tentado a fugir para os tempos compostos onde habita o plano do universo paralelo, onde frutifica o reinado do inexistente, nesse lugar onde não se respira e nem se fazem escolhas.

E lá estou eu, mistura de pensamento, sentimento e sensação num mundo repleto de abismos e contradições, percorrendo universos distintos à medida em que caminho.

Se os eventos são como dados que giram, já não me importo mais. Não grito diante do inconcebível. Não giro no próprio fuso em busca de sentido. Não esperneio diante do indesejado. Posso ter a paciência de esperar. Aceitar as coisas sem resignação. No fundo só preciso de foco, estar dentro de mim com clareza. Tenho as armas dentro de mim. Um pulmão que respira, um eterno espanto e um autorrespeito. E, acima de tudo, percepção. Nunca antes tão clara. Tudo claro o quanto antes. Antes o quase do que nunca o nada.

Andei, por muito tempo, na corda bamba, seduzindo o abismo. Mas ninguém consegue andar tanto tempo no desfiladeiro, impunemente. Me sentia segurando fio desencapado, botando o dedo na tomada. A vida me forçou um

pouco, eu não aceitava. Era como se a vida me devesse. Então, rompi com deus e me senti só. Caí da corda. Fiquei meses caindo, tendo o abismo como meu companheiro. As aventuras fugazes, como passatempo; as diversões ligeiras, como companhia. Nada de meus pés no chão. Hoje, ainda há uma inquietude, pois sou alma sensível. Não há outro caminho senão a falta de caminho! Vamos assim, meus universos paralelos e seus efeitos colaterais, deixando marcas aqui e ali, para depois tudo se dissolver!

Hoje não quero mais procurar lógica nos eventos trágicos. Não há mais motivos para tentar reconstruir o que são ruínas. Ao lidar com o desconstruído, estou de frente para a parede cega. Quero jogar luz.

Então diante do clarão que se fez, percebi os círculos que traçava ao me locomover no decorrer do tempo, que se ampliavam a cada ano. Diante desta revelação pude então descobrir que é no equilíbrio do silêncio, no vazio da solidão, nessa incomunicabilidade, nessa aceitação da escuridão simples e suspensa que está o que pode vir a ser A Verdade. Ali onde não há pretensão é que está o conteúdo. Onde não há vontade do ego. Onde meu eu nada diz, e minha mente cala. A vida encontra a morte e desvela-se o enigma: na ausência de movimento, surge a semente da ondulação.

Eu pego pesado pra no dia seguinte não me levar mais a sério!

Hoje, sou uma alma sempre me recompondo. Mudam-se as perguntas, seus cenários, suas respostas, seus contextos, minhas texturas, minhas coceiras trocam de lugar.

Eu vou confessar: rir me faz mais feliz do que reclamar.

Capítulo#18: Sobre a apatia bovina

Ao lidar com os problemas de minha própria alma, demarco e amplifico o intraduzível. Vou mudando de pontos de vista, posturas, atitudes... É como se fosse um filme: eu num carrossel rodando a cada ano... E, seja repleto de fúria ou êxtase, frustrado ou vitorioso em meus propósitos, alegre ou cheio de dores, amadureço meu espírito e me preparo com alguma antecedência para partir...
Não posso basear a minha paz na balança das perdas e ganhos, muito menos ser uma alma vítima de minhas próprias armadilhas. Não posso ficar na expectativa do bote da
serpente na esquina dos dias. Não quero mais
permitir que alguns dias me esbofeteiem. Posso provar do amargo e, ainda que não queira ser mais um, levantar a bandeira da lamúria. E, assim, acabar no fosso escuro da amargura, nesta vala que devora o sonho de tantos e os faz caminhar sem rumo, tontos, cheios de vazios. Não vou deixar me endurecer e passar a olhar a vida de soslaio.

Há algo da apatia bovina que parece atacar a maioria... Gostaria muito de escapar da aceitação do que não quero. A extrema voltagem que cerca a vida viva me indica que maior que o medo de morrer é o medo de morrer desperdiçando vida. De não fazer da vida o que a tua vida quer. De chegar ao fim se perguntando o que que se fez da vida com gosto amargo. De chegar com sede e se deparar com o deserto sem fim. Eu quero poder chegar ao fim da vida e poder assinar meu nome, com orgulho. Aqui jaz Eu, com tudo aquilo que pude ser.

CAPÍTULO#19: Matemático e impreciso

Repito. Me perdoe, pois sei que me repito e não me controlo. Vou montando as frases com os meus pensamentos reincidentes, e assim vou montando meu quebra-cabeça literário. Sei que Sou um ser que necessita repetir. Repetir para constituir, construir, consistir... Repetir para compreender, ou talvez seja somente neurótico mesmo.

Só sei ser assim. Quantos quilômetros rodo para completar o mesmo circuito e de novo retomar a mesma rota? Vejo o tempo passar nessas idas e vindas... Vejo a vida me levando pelos caminhos que optei e que nem sempre escolhi. Sou como uma árvore em pleno descampado, o raio sempre pronto a descarregar no ponto mais alto. Basta estar em pé, basta me locomover para chamar a atenção dos eventos que estão à disposição.

Somos nós na nossa alegria de respirar e se perceber neste lugar-momento. Não temos nada além desses tempo e espaço.

Carrego minha pedra de um cume a outro da montanha a cada dia. E amanhã, de novo, e depois... e depois... e depois... Nem sempre pesada, nem sempre leve.

Refaço o mesmo trajeto. Até perceber que não está no destino o motivo da ida, mas na repetição da tarefa, a tentativa de conclusão a que nunca chego, mas ainda assim persisto.

A morte é a conclusão instantânea da vida que enfim se conclui. Enquanto isso não acontece, revoluções/resoluções te aguardam. A vida derrete. Você vai patinando como num cubo de gelo. Ele, com o tempo, vai diminuindo de tamanho. Você também diminui com o tempo, ao mesmo tempo em que cresce por dentro. A velocidade do derretimento é imprevisível.

Próxima estação: 27anos. 32 anos. 35. 37. 42. As idades são como estações de trem. Uma após a outra. Não
há como pular ou desviar o caminho do tempo. Você irá caminhar entre os intervalos das idades, sentir a vida passar como as estações do ano. Há espaço para tudo dentro de meu coração. Ao olhar o horizonte, surgem lembranças de todas as minhas idades. Cheiros, luzes e cores tão vivos. Vivemos todos os tempos num único presente. Crescimento, flor, semente, maturação e declínio numa única cápsula. Início, meio e fim. Matemático e impreciso. Contínuo em sua eterna impermanência.






CAPÍTULO #20: O pântano das questões dispersas

Sou uma alma diante do vale repleto de ecos de mim mesmo. O eco é como o espelho, reflete. Prossigo por vezes no pântano, onde as questões estão dispersas ou despedaçadas. Navego também no espaço naufragado. Flutuo no espaço leve da ausência de pensamento. Na verdade, navego em qualquer lugar. Basta ter água e um barco. Bote os elementos, e eu os utilizarei. Letras, papel em branco, canetas. Um teclado e uma realidade. Caminho na divisão das águas. Em alguns pontos há águas sem peso, noutras, em tons espessos. As águas têm diversas gramaturas. Você não percebe. Águas de todos os tipos, pesos, densidades. Num mundo repleto de água, não as estudar é ficar cego. Há águas de todos os tipos. E ao mesmo tempo há o deserto.

Eu invento a minha vida. Sou eu quem recrio a paisagem, a atmosfera que me rodeia, eu reinvento a realidade a partir do que enxergo.

Redesenho este círculo que rabisco ao redor de mim mesmo. Sublinho o meu interesse, numa área especifica. Sou completamente responsável no modo como conduzo minha mente/vida. Posso amplificar a dor ou colocar leveza do prazer com o poder do que desejo, com aquilo que meus pensamentos conduzem. O magnetismo dos meus pensamentos e suas ondulações se revelam no meio da jornada. Suas ondas podem vir secas com o poder do deserto ou se revelar no musgo. Podem desaguar no lodo das águas paradas, nessa energia lenta dos pântanos,
cuja luz úmida e silenciosa te faz sentir mais sozinho. Nesse lugar que te faz chafurdar em águas lentas, num lugar escuro e mofado da mente. Posso também me conduzir a áreas mais solares, em lugares por onde circula o vento
que faz dissipar qualquer bolor. Posso também jogar luz no que facilmente germina e florescer no esplendor do que
tenho de melhor, nessas matas fecundas...

Após o pântano, chego à montanha. Subo uma longa caminhada e chego a passagens estreitas. Agora dou as mãos ao Abismo. Passo a vesti-lo todas as manhãs... No decorrer do dia o precipício vai ganhando transparência até o ponto em que esqueço que ele existiu no começo da manhã. Se no meio do lixo há tesouros, se os que sofrem mais ganham prêmios no final, se há alguma lógica nos atingidos pelos raios fatais, são perguntas sem respostas.

Agora os caminhos se desfazem ao caminhar, é o momento perfeito para inventar uma nova cartografia, um mapa que inclua a quarta dimensão: o tempo. Ali, o futuro e o passado tentam retirar de mim a única opção em que possuo escolhas. No presente, sou dono de mim. Ao voltar-me para este instante, sei que sou o único responsável por transformar-me naquilo que quero ser. E isso é eterno.

No fundo, todo agora está sempre vazio. É sempre essa aspiração a completar-se que nunca se realiza. Por isso que é sempre no presente que se respira. Não há nada além do aqui e agora. Eu encaro o espelho imaginário que me diz
= Você não estará sempre aqui. Nem sempre haverá Agora. Eu tenho 40 anos. Todo o vazio está à minha disposição sempre no aqui, sempre no agora.

Tento estar inteiramente aqui, neste vazio, agora. Sei que nenhum agora é para sempre. O vazio é um lugar que nada contém, contido em algo maior que a tudo engloba. Existe desde o início dos tempos e é maior que a parte que o contém. É real e dele todos fugimos. O vazio é o cheio pelo avesso. Fagocita mundos inteiros. Faz-nos atravessar
uma ponte, que nos leva da vida pra morte, evaporando em seguida.

CAPÍTULO#21: Um passageiro da impermanência

Sou o passageiro do inédito, no trem da impermanência, no vagão da instabilidade. Nossos cadáveres não irão pedir licença para se despir de nosso espírito na hora de nossa morte. Eles simplesmente te dispensarão. Serão carcaças a ser descartadas. Um corpo. Uma alma. Uma mente sem oxigenação e vazia. Independentes. É preciso dar valor ao bem-estar quando o bem-estar se oferecer. É tudo muito evasivo.

Sei que me liquefaço em repetições.

O dia a dia me coloca na direção do veneno inoculado pela ampulheta que marca os dias que passam, pelo relógio do tempo. O pavio vai queimando vida. Difícil julgar quando em vão, quando não. Até que um dia, por acidente, acaso, escolha ou desgaste, apagamos.

Tento contato com entidades superiores em busca de respostas a que não tenho acesso. Há um silêncio aqui. Minhas experiências acumuladas serão lambidas pelas ondas do tempo. Deixarei pegadas que desaparecerão. Minhas

agonias e prazeres cessarão. Meu desconforto e prazeres corporais ocasionais irão terminar. Não há mágoa. Nem mácula. Nem arrependimento ou culpa. Simplesmente, me vejo me vendo, eu aqui com meus pequenos julgamentos irascíveis!

Tento capturar o momento, parar o vento, congelar o tempo, como em uma fotografia. Onde me encontro vive a morte em partes, morre a vida aos poucos. Fico no radioamador em busca de contato, escuto algumas mensagens, inteligíveis ou não, no mais é só eletrostática. Agora não tenho mais pressa. Agora, esta ânsia em virar a próxima página antes mesmo de ler a anterior evaporou-se. Agora, quero estar aqui. Vou desenhando pretensas novas rotas, traçando histórias perdidas, momentos desperdiçados. Desfio meus erros, acertos, criptografo páginas recém-escritas, gravadas ou esquecidas...

A única coisa a deixar são testemunhos, registrar esse espanto diante deste mundo inexplicável, admirável e espantoso. Sou um corpo e uma mente que desfilam na passarela do tempo, que ficam fascinados por esse mundo vasto e no momento certo despencam no desfiladeiro.

A morte escolhe alguém a toda hora. Até a tua hora. E pinça a cada momento uma alma desavisada e a torna pálida. Qual fenômeno o resto de oxigênio cria em seu cérebro? O que pensa esta alma, pega de surpresa, ao se perceber sem corpo? Rodopia em seu balé confuso, em seu caminho errante? Abre e fecha trincos imaginários, atravessando portas invisíveis? Sozinhas... Sozinhas... De tão elas mesmas. Como uma barata tonta, repleta de inseticida.

Não há seta indicativa, não há placas sinalizadoras, nem nomes de ruas, nada. Você sem o que você chamava de você. Você sem corpo. O tempo infinito. Alma sem tato. Voz sem projeção. A sua percepção, mas não mais a sua interferência neste mundo. Não mais o seu bafo embassando o vidro, ou a sua pegada marcando a areia. Nem um vestígio, nenhum sopro. Nenhum ato corpóreo. Só uma lembrança. Ou nem isso.

Só você voando, flutuando, atravessando paredes.

CAPÍTULO#22: A teia transparente dos registros invisíveis

São milhares de almas que já partiram e viveram e deixaram ecos silenciosos na teia transparente dos registros, visíveis ou não. São tempos diversos se somando. Todos os níveis de existências, que viveram suas vidas, consequências de escolhas ou acasos, e deixaram reverberações, seja de pó e resquícios de esqueleto, lembranças ou energias projetadas. Todas as camadas, umas sobre as outras. A arqueologia dessa